
Momentos de transição são particularmente importantes para compreender os períodos de hegemonia. Talvez Malm tenha assimilado esta lição contida em O Capital de Marx. Mas a semelhança não é apenas esta, Capital fóssil é um livro que busca desvelar certos processos de constituição da atualidade desmontando formas ideológicas de explicação sobre a história que constituiu a atualidade, ou, revela desenvolvimentos que se encontram subjacentes ao processo de constituição hegemônico da economia e história da revolução industrial. Estamos diante, então, de uma tentativa de reformulação do problema climático a partir da elaboração histórica de como se deu este processo que nos formou, a partir de uma desmistificação do que foi a transição entre as energias de fluxo e as animadas de um lado e a energia de estoque, de outro. Produzindo uma argumentação conforme o tema é desenrolado, fica claro que a posição do autor é crítica ao modelo de antropoceno e todo o seu livro gira em torno da ideia de que o aquecimento global foi apenas possível devido ao modo capitalista de existir.
Nos muitos capítulos somos tomados por inúmeras referências, fatos, dados e números que buscam de muitas maneiras circundar este argumento central. Somos herdeiros de uma escolha definida pelo modo de existência capitalista, não por ocasião de necessidades naturais ou econômicas que se impuseram sobre nós e tornaram necessária a utilização da economia fóssil. Não se trata, portanto, de algo próprio ao gênero humano o fato de que hoje vivemos um período novo da geologia do planeta, cujos acontecimentos e escolhas sociais, principalmente a forma como nós produzimos energia, alterou substancialmente os elementos físicos, causando o aquecimento global e provocando alterações cada vez mais catastróficas e inesperadas - questões como a pandemia e outros desastres naturais serão cada vez mais constantes.
Se for possível delimitar uma tradição, portanto, Malm está mergulhado em águas marxistas, ele o faz, no entanto, por uma crítica a uma linha de leitura da história em Marx. Parece ser uma leitura importante, porém, como forma de recolocar uma questão sobre a ideia de história em Marx: se havia em Marx a necessidade de mostrar que a produção da sociedade, isto é, como os seres humanos produzem suas formas de subsistência, através do trabalho e das relações econômicas e a evolução tecnológica que o envolve, como vemos, por exemplo, no desenrolar do conceito de mercadoria como forma que se expande para toda a sociedade pelo modelo do valor de troca, seria hoje necessário evidenciar o outro lado da oposição dialética? Qual seja, que a sociedade permeia a partir de suas ideias a forma pela qual produzimos e somos produzidos?
Não seria, então, exatamente uma crítica ao modelo de contar a história de Marx o que Malm estaria criticando, mas ao peso que se dá ainda hoje a um formato de história que deixa em evidência apenas uma parte da relação entre produção e relações sociais? Mas, o mais importante, seria que, na era das crises climáticas, é impreterível evidenciar que a sociedade capitalista não é uma coisa só com o gênero humano.
Estamos, assim, diante de uma questão que já estava em Adorno (via Marx, certamente), a de que não se deve tomar nosso contexto social como algo dado e não constituído socialmente. O que reverbera no mais básico de seu conceito de história natural: ver no que aparece como o mais histórico, o natural e o que aparece como o mais natural, o histórico. Esta mediação entre história e natureza assegura algo que perpassa a filosofia adorniana: a ideia de que não estamos em hipótese alguma num terreno seguro teoricamente, e isto não deve ser desprezado justamente pois não há como determinar uma verdade absoluta sobre a sociedade, apenas sempre afirmar a necessidade da crítica radical ao estado de coisas existente e a tensão do que existe para além disso, em latência.
O que Malm opera em sua recuperação da via histórica frente à via espacial é uma retomada de Marx à luz da catástrofe climática. Não é mais uma história recontada pelo ponto de vista dos perdedores, no sentido da luta de classes, como em Marx, ainda que a luta de classes esteja necessariamente presente para mostrar como a energia gerada pelo trabalho humano teve que ser substituída pela máquina e sua energia fóssil, mas uma história recontada pelo lado da forma de produção de energia que saiu perdendo no capitalismo. E o motor deste processo não foi aquilo que mais intuitivamente poderia parecer compensar para o capitalismo, o lucro. Algo a mais acontece no interior do capitalismo que cria uma faísca, um curto circuito no cerne do modo de produção capitalista, e coloca em evidência uma outra contradição: individualismo e coletividade.
Aqui já não estamos mais falando na contradição essencial desvelada por Marx, a de que o capitalismo gera a possibilidade de que o trabalho acabe (através da criação de máquinas que realizam o trabalho), enquanto mantém a necessidade de exploração do trabalho humano como peça fundamental para a valorização do capital, fala-se que a tendência burguesa à individualização impede a produção tecnológica que vise ao bem estar coletivo. Ou formulado de outra maneira: o capitalismo poderia criar soluções tecnológicas para que a vida em coletividade melhore, mas a ideologia hegemônica individualista implode qualquer existência verdadeira de coletividade. E esta contradição está no cerne da forma como a natureza é pensada, ou, mais precisamente, ignorada, no processo de formação da economia fóssil como conhecemos hoje. Malm parte do princípio de que é devido à combustão de elementos fósseis, que corresponde à grande maioria do dióxido de carbono liberado na atmosfera, que o efeito estufa aconteceu e toda a estrutura física terrestre encontra-se em transformação. É a partir da utilização de carvão mineral para a máquina a vapor que se deu início ao processo de engendramento da economia fóssil como conhecemos hoje, e é por ter sido lá atrás que se iniciou este processo cumulativo de gás carbônico que chega até nós, que se faz necessária a reconstrução de suas bases. Soa aqui o eco do que Marx escreveu em Miséria da filosofia: “Os economistas nos explicam como se produz nessas relações dadas, mas não nos explicam como se produzem essas relações, isto é, o movimento histórico que as engendram” (MARX, 2017, p. 98).
Porém, é também nesta mesma obra que está a frase que gera a leitura de que seria por uma tendência de desenvolvimento intelectual humano e sua criação tecnológica que se teria produzido o motor a vapor e, em consequência a isto, a sociedade capitalista:
As relações sociais são intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens mudam o seu modo de produção e, ao mudar o modo de produção, a maneira de ganhar a vida, eles mudam todas as suas relações sociais. O moinho movido pelo braço humano nos dá a sociedade com o suserano; o moinho a vapor nos dá a sociedade com o capitalista industrial” (MARX, 2017, p. 102).
O que Malm visa, portanto, parece ser justamente colocar Marx contra Marx, usufruindo de seu posicionamento histórico que propõe uma desmistificação das teorias econômicas ao criticar duramente o método econômico pelo aspecto exterior de sua abordagem, mas refutando a formulação de que as relações sociais seriam necessariamente criadas pelas formas de produção. Poder-se-ia argumentar em favor de Marx que havia um contexto para que se colocasse um peso na determinação da maneira como se produz a vida sobre as relações sociais: era uma crítica àqueles que realizavam uma análise das categorias econômicas apartadas do seu contexto material-histórico, tornando-as elementos imutáveis e ideais (neste caso, Proudhon era o alvo, e indiretamente certa leitura de Hegel aplicada).
Na sequência, Marx continua, “Os mesmos homens que estabeleceram as relações sociais de acordo com sua produtividade material produzem também os princípios, as idéias, as categorias, de acordo com suas relações sociais” (MARX, 2017, p. 102). O que visa Marx é implodir a concepção de que as ideias que produzem uma certa leitura da sociedade estejam apartadas da produção material da vida em determinada época, ou seja, não são perenes, mas históricas. Pode-se presumir com isso que a própria produção científica, ou tecnológica, esteja no campo das relações sociais, o que Malm busca afirmar em sua ideia central de sua argumentação de que a utilização da energia a vapor só foi possível por elementos internos à própria forma da sociedade capitalista. Mesmo que tenha sido em um período de transição e consolidação destas tendências sociais, período que já carrega consigo tudo aquilo que se desenvolverá de forma plena posteriormente com o capitalismo industrial.
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Há pelo menos dois eixos que possibilitaram ao autor fortalecer sua argumentação contra uma certa concepção dada de natureza humana que teria sido o fator determinante para a formação do antropoceno (além de um questionamento implícito ao próprio nome). O primeiro podemos denominar de crises e luta de classes, ainda que o autor não cite o termo de Marx, mas consideramos algo implícito; e, por outro lado, a imposição da ideologia burguesa formada pela contradição indivíduo-coletividade. A primeira faz emergir aspectos da tecnologia que se apoiam numa luta pela manutenção hegemônica dos capitalistas, não só em seu lugar superior como proprietário dos meios de produção, mas, também, como proprietários do controle sobre os direitos dos trabalhadores. Minar os meios nos quais os trabalhadores encontram-se com superioridade para negociar o próprio valor de subsistência foi o motivo para que os capitalistas, que em geral competem entre si, unirem-se e encomendarem máquinas com o objetivo de substituir trabalho que era feito apenas por mãos humanas.
Quer dizer, apagar a dependência com relação ao trabalho vivo parece ser a forma que os capitalistas encontraram para lidar com a eterna dependência da valorização do capital pelo trabalho humano sem ceder às exigências trabalhistas. Ou seja, torna o trabalho supérfluo em sentido de habilidade e singularidade, mas necessário em sentido quantitativo, apenas como manipulação simples da máquina.
Malm mostra que as crises (1825, 1842) geraram convulsões sociais, e, associadas às quedas das leis que proibiam os trabalhadores a criarem sindicatos e se manifestarem, fizeram com que trabalhadores da indústria do algodão, cujas habilidades eram imprescindíveis, tivessem grande poder de paralisação das fábricas e, consequentemente, sobre as negociações os capitalistas. Os spinners foram substituídos por máquinas capazes de fazer o seu trabalho, máquinas movidas à energia a vapor. O que traz um primeiro elemento da argumentação: o primeiro passo para a introdução da energia de estoque, como Malm chama a energia baseada em combustível armazenado em estoque, como o carvão, é a necessidade do capitalista de sobrepujar a força de revolta do trabalhador. A máquina a vapor é inicialmente facilmente adotada por uma classe contra a outra. Em segundo lugar está a impossibilidade de que o engenho hidráulico que produziria grandes mecanismos de represamento da água, propiciando melhores e maiores quantidades de energia, fosse adotado por parte dos capitalistas que simplesmente não aceitavam as contrapartidas comunitárias que tais empreendimentos poderiam gerar. Foi uma vitória da técnica mais simplificada e suja sobre a ciência da engenharia mais sofisticada e não poluente, segundo Malm. Por outro lado, então, o capitalista seria este átomo fruto da concorrência e avesso ao que lhe prende a uma ideia de comunidade, a lógica do indivíduo isolado, concorrente do outro, homo economicus apartado do social, cuja liberdade se encarna em sua função de proprietário, exprime de forma mais pura a essência do combustível fóssil naquele período: fragmentado e, no entanto, igualado a todos os outros por sua característica tóxica.
Este elemento, que já havia se enraizado pela Grã Bretanha por seus atributos termais, o carvão, foi aos poucos tomando o lugar da água e liberando cada vez mais gás carbônico na atmosfera, e o que vivemos hoje em tempos de acúmulo e aquecimento global só é possível por causa daquele evento, e o que será vivido no futuro será resultado do que fazemos agora. Isto gera, segundo Malm, uma alteração na própria forma temporal. Estaríamos vivendo o tempo de uma nova forma sob este peso do acúmulo sobre os nossos tempos. Abre-se um caminho mais próximo entre o que foi e o que é, aproximando períodos muito distantes. Seria possível dizer que nessa processualidade disruptiva do passado foi possível desvelar certo aspecto da temporalidade que pode ser melhor percebida pela permeabilidade da não linearidade?
Não é um tema pouco comum na atualidade a ideia de que estamos vivendo em um novo tempo, uma nova forma de viver a experiência da temporalidade em nosso momento histórico. Daria para citar o tema a partir da leitura que Paulo Arantes faz de Koselleck e da atualidade como o fim de um tempo de expectativas surgido no iluminismo pela ideia de um tempo linear e progressivo. Hoje já não haveria mais esta expectativa de algo a acontecer, mas um declínio do horizonte de expectativas.
Pelo o olhar destes dois aspectos de uma experiência com o tempo do mundo, pode se fazer sentir a experiência de um tempo deslocado da linearidade, uma vez que já não se vê como possível um horizonte de transformação, mas, de alguma forma vive em paralelo o impulso deste tempo tempo progresssivo que já não faz mais sentido contra a falta de perspectivas de outra realidade social possível. Daria aqui então para relacionar o tempo atual, permeado por crises econômicas e políticas, rebaixamento de expectativas não apenas social, mas relacionadas à sobrevivência na terra - ou à possibilidade de viver em meio a catástrofes cada vez mais frequentes, com experiências revolucionárias como as que eclodiram nos anos seguintes à crise de 1842 na Inglaterra. Nesse sentido, seríamos herdeiros não apenas do dióxido de carbono liberado pela indústria desde o século XIX, mas também haveria uma relação de não progressão com o passado, ou simples continuidade, mas uma forma de reencontrar os mesmos conflitos e emergências anti-sistêmicas que a ordem hegemônica não cessa de usurpar.
Percebido de forma não linear, o novo tempo do mundo também permite verificar que vivemos em uma época de transição, na qual a tecnologia vem se transformando cada vez numa velocidade maior e que a sensibilidade relacionada ao tempo tende a ser cada vez mais acelerada: a percepção do mundo e as mudanças climáticas estão acontecendo cada vez de forma mais acelerada e irreversível. O nosso mundo em transição está inserido num incessante mundo de transição. O que significa que também vivemos novas e mais elaboradas formas de dominação e subjugação da revolta contra o trabalho mal remunerado e precário.
Poderíamos dizer que há uma colisão do tempo cronológico com o tempo da experiência que se exprime de forma mais clara em momentos de transição. Nestes períodos, a lógica que estrutura os momentos de estabilidade se suspende e os elementos que se encontram submersos pela normalidade do social acabam se tornando mais evidentes e se esgueiram para os centros do funcionamento social, como descreve Letícia Cesarino em O mundo do avesso, o que explicaria muitos elementos que, se antes apareciam como apenas anomalias dentro de uma sociedade democrática, hoje são erigidos ao lugar de questões centrais.
O que, no entanto, não deixa de produzir uma grande oportunidade para que o capitalismo se fortaleça com a precarização do trabalho e force por todos os lados o seu contínuo processo de deterioração do meio ambiente. Mesmo quando o assunto são as energias tidas como limpas, há uma enorme destruição social e cultural em torno disso. Enquanto Malm coloca as suas fichas na ideia de fontes energéticas não poluentes, ou que não sejam de combustão, parece distante da negatividade que o proletariado representa em Marx. Hoje as energias hídricas não deixam de produzir catástrofes sociais e serem assimiladas ao capitalismo. O novo tempo, não obstante, têm sido dos conflitos sociais cada vez mais frequentes, sendo o meio não apenas da esquerda, mas também da direita, de buscar seus interesses. As insurreições têm sido frequentes e a questão climática ganha protagonismo no debate público. O livro de Malm é uma excelente contribuição para fazer ressoar a constatação de que não há a possibilidade de uma sociedade mais democrática cujas energias sejam limpas e produzidas com responsabilidade social sem a luta que represente uma permanente crítica ao que a criou, o capital.
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CARINE LASER é mãe, filósofa, escritora e psicanalista clínica. Possui graduação em filosofia, mestrado em educação e é doutoranda pelo departamento de filosofia da USP. Faz parte da comissão editorial da revista Estilhaço e coordena o grupo de trabalho de Teoria Crítica e Psicanálise do Latesfip.