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Este artigo investiga como a floresta do Mayombe participa da construção simbólica da Angola independente, principalmente por meio de uma análise crítica literária do romance Mayombe (1980). Escrito pelo autor-guerrilheiro Pepetela enquanto vivia e combatia na floresta, o livro contribui para uma reescrita dos significados do espaço natural angolano, compreendendo-o como sujeito e soberano, numa mistura mítica entre identidade e território.


Para situar essa leitura, traçaremos um panorama do constante estado de disputa que caracterizou historicamente a região do Mayombe. Sobrevoando sua conjuntura política antes e durante a colonização até o período revolucionário das décadas de 1960 e 1970, veremos como os personagens, o autor e o livro entram nessa batalha — tanto armada quanto narrativa — cujo epicentro geopolítico é a floresta.


Trilharemos, então, o romance analisando como a floresta é construída ficcionalmente, envolvendo-se com os corpos, casas e conflitos dos guerrilheiros, num redemoinho que acaba por fundir figuras e fundo. Criando, em seu nó, um hábitat cíclico e autossuficiente que norteia a utopia de independência, a própria floresta se revela interação entre humano, cultura e natureza. Dissolvem-se todos em mistura, funda-se o caldo de uma nação.

 

 

DISPUTA E IDENTIDADE NA FLORESTA MAGNÉTICA

A floresta do Mayombe se estende paralela à costa atlântica da África Austral. Seu extremo sul toca o extremo norte do território que hoje conhecemos como Angola. A divisa é a foz do rio Zaire ou Congo. Esta e a baía de Cabinda, que costeia a porção sul da floresta, sempre tiveram grande importância comercial pela conexão do interior do continente ao oceano, segundo o historiador gaúcho Roger Machado Marques (2022, p. 17).

Guerra, portanto, lá não é novidade. O maior e mais complexo reino a controlar a região foi o Reino do Congo, incorporando à sua federação tributária uma sequência de reinos das margens do Mayombe (Puna, 2019, p. 241). Foi através deles, na foz do Zaire, que, a partir de 1482, o Reino de Portugal gradualmente se inseriu nas dinâmicas comerciais da baía (Marques, 2022, p. 26). Inauguravam-se, simultaneamente, a relação da floresta com aquele outro lado do mar e a história de exploração de Angola.

À medida que o território entrava na condição de colônia, ao ver do historiador gaúcho Alencar Rampelotto da Silva (2018a), a antiga relevância comercial da baía de Cabinda se atualizava. No século XVII, atraindo cada vez mais embarcações europeias, tornava-se um dos principaiso portos da economia do Atlântico Sul (Marques, 2022, p. 27). Ou seja, o campo de atração do Mayombe crescia na água salgada.

Só no século XIX, quando Portugal redirecionou e ampliou seu programa colonialista para o interior do continente (Silva, 2018a, p. 30), Angola e Cabinda foram efetivamente demarcadas, até então como colônias diferentes e territorialmente separadas. Entre elas, a disputada foz do Zaire coube ao então Estado Livre do Congo, controlado pelo rei da Bélgica.

E, na primeira metade do século XX, instaurou-se em Portugal o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, que reconfigurou a exploração de Angola em bases capitalistas já desenvolvidas, mas ainda marcadas pela estrutura colonial (Pacheco et al., 2018, p. 89). É nesse cenário contraditório, de modernização dependente, que nascem e crescem os personagens de Mayombe.

Entre eles, Teoria, Milagre, o Comissário, o Chefe de Operações e o Chefe do Depósito vêm do noroeste angolano, terra das plantações de café; Muatiânvua, por sua vez, vem do norte, centro da mineração do diamante.

 

Muitos vêm de aldeias e contextos rurais, enquanto poucos como Sem Medo (o Comandante) e o Mundo Novo têm formação intelectual em contextos urbanos. Essa diversidade se faz clara por uma estrutura narrativa polifônica, sobre a qual múltiplos narradores inscrevem suas memórias, convergentes na recorrência de experiências de desigualdade e violência.

Contudo, emerge como principal distinção de suas origens a ancestralidade. Teoria é mestiço; Milagre, o Comissário, o Chefe de Operações, o Chefe do Depósito e Ingratidão do Tuga são kimbundos; Lutamos é cabinda; Sem Medo (o Comandante), Pangu-A-Kitina e André são kikongos; Muatiânvua, filho de bailundo com kimbundo, diz não ser nada ou ser tudo. Nasce dessa heterogeneidade o desafio de forjar uma unidade essencialmente angolana, quando todos vêm a se encontrar em um movimento organizado contra a exploração colonialista portuguesa.​

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A resistência vinha se articulando sistematicamente na colônia pela panfletagem, pela participação em conferências pan-africanistas e, sobretudo, pela ação armada. Sem capacitação militar ou armamento proporcional ao português (Tutikian, 2006), consolidou-se por todo o território angolano a principal forma de combate presente no nosso romance: a guerrilha.

Tamanha efervescência é indissociável da Guerra Fria. Além de repartido entre os domínios europeus, o continente africano “serviu como campo de batalha de ideologias e interesses políticos e econômicos” (Marques, 2022, p. 20) dos Estados Unidos da América (EUA), da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), da China e de Cuba. Essa orquestra de forças chega às discussões entre os personagens de Mayombe, que gritam nomes como Marx, Che Guevara, Henda, Freud, Mao e Lênin (no original, Lenine).

Sob e entre essas influências, iam se estruturando os diferentes movimentos nacionais. Um dos mais relevantes, e ao qual pertencia Pepetela, era o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Apresentava-se como um movimento pan-angolano, defendendo a diversidade étnico-cultural como fundamento da identidade nacional (Ibid., p. 42). 

Nele é que convergem nossos personagens tão distintos, recrutados para uma de suas regiões de combate: a floresta do Mayombe. O movimento instalava unidades administrativas ao seu redor, como nas cidades de Cabinda, Dolisie e as capitais adjacentes dos dois Congos, Kinshasa e Brazzaville, fora do domínio da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (Pide) de Portugal. Esse órgão de inteligência e repressão — associado por Silva (2018a, p. 65) à relação estratégica da ditadura portuguesa com os EUA na Guerra Fria — expandira-se tanto na metrópole, perseguindo os intentos comunistas, quanto nas colônias, perseguindo independentistas (Ibid.).

Muitos fervilhavam em Cabinda, principalmente quando, em 1955, foi transformada pela administração salazarista em distrito de Angola. A medida veio a contragosto de muitos interesses locais e, logo, também de estrangeiros, porque acabavam de ser descobertas reservas de petróleo nas águas da baía. Intensificavam-se, assim, a importância e o trânsito de pessoas pela região, agora também disputada tanto pelos dois Congos — vizinhos que em 1960 conquistavam suas independências (Marques, 2022, p. 59) — como pelos movimentos organizados angolanos, que mediam projetos cada vez mais amplos e custosos para o futuro da nação.

Com essa conjuntura, segundo Marques (2022), os relatórios dos agentes da Pide que atuavam em Cabinda entre 1960 e 1961 expõem um “constante estado de vigília e medo” (p. 88), evidente no nosso romance na relação hesitante entre os cabindenses e os guerrilheiros angolanos, resultado de tamanha disputa pela influência sobre a floresta.

Eclodia em 1961 a luta revolucionária que, ao longo de 14 anos, regaria de sangue essa terra, fazendo brotar o livro Mayombe.

Junto, nascia também Pepetela. Ou, mais precisamente, essa identidade híbrida de guerrilheiro e escritor, rebatizada por seus companheiros de guerra na região do Mayombe ao traduzirem para o umbundu o “Pestana” de seu nome, Artur Carlos Maurício Pestana do Santos. Essa fusão, apontada na análise da pesquisadora amazonense de literatura angolana Adriana Aguiar (2013, p. 27), ocorria ao mesmo tempo em que ele escrevia Mayombe, entre 1969 e 1971.

Dentro da floresta, romance e autor se criavam simultaneamente, em um processo que — segundo a pesquisadora carioca Rita Chaves (2005a), referência nos estudos de Pepetela e literatura angolana — “fazia da luta pela independência política uma batalha pela construção da identidade cultural” (p. 54). Isto é, uma releitura do que era Angola e como era o angolano.

Tais lutas política e identitária são indissociáveis porque a colonização, como sistema simbólico, nas palavras do historiador paulista da literatura Alfredo Bosi (1993), chega para o colonizado “à memória, aos seus modos de representação de si e dos outros, enfim aos seus desejos e esperanças” (p. 377). Desde a infância, como descreve o jornalista angolano Carlos Ervedosa (1985), colonos atendidos pelo rarefeito sistema educacional português em Angola 

 

recitavam de cor todos os rios, todas as serras, todas as estações e apeadeiros das linhas férreas de Portugal, mas que mal sabiam os afluentes do Cuanza que corria ao seu lado, as suas serras de picos altaneiros, os seus povos de hábitos e línguas tão diversas, que liam e faziam redacções sobre a beleza da neve ou o encanto da Primavera que nunca tinham presenciado, que desenhavam a pêra, a maçã ou a uva sentindo apenas na boca gulosa o sabor familiar e apetecido da goiaba, da pitanga ou da gajaja, que interpretavam as fábulas de La Fontaine mas ignoravam o fabulário, os contos e as lendas dos povos da sua terra, que sabiam com precisão todas as datas de todas as façanhas dos monarcas europeus, mas nada sobre a rainha Nzinga ou o rei Ngola. (p. 81).

Pela análise de Chaves (2005a), “o espaço africano ficava apagado e o homem que ali vivia, jogado na abstração de referências impalpáveis” (p. 48). Fazia-se urgente, portanto, dentro da reinvenção política e cultural do sujeito angolano, uma releitura também de seu espaço.

Contracenando com a exclusão programática da geografia angolana pelo sistema português, a literatura de Angola vinha para realizar simbolicamente a reapropriação do território invadido (Ibid., p. 61). Nos textos de Pepetela, como mostra Chaves (2005b), “recortadas pelas fendas de uma História viva, as referências geográficas compõem mais do que o cenário, irrompendo no texto como senha de um projeto” de independência cuja nova identidade era conquistada “no riscar de um mapa que se redesenha nos sulcos de uma memória reinventada” (p. 80).

Assim, com Chaves, podemos compreender que “a utopia de uma nação angolana parece passar pela posse, também literária, da terra” (Ibid.), sendo Mayombe um redimensionamento do romance histórico que faz da ficção um campo de reinterpretação do espaço natural. Para reinventar Angola, reinventa o epicentro mítico-político dessa história de disputa: a floresta do Mayombe.

O HÁBITAT ANGOLA FUNDADO DA MISTURA

Para perceber o romance por essa ótica, analisemos a presença da floresta do Mayombe ao longo da narrativa. Vejamos como ela se constrói ficcionalmente nas relações que trava com os personagens guerrilheiros. A começar pela epígrafe:

Aos guerrilheiros do Mayombe,
que ousaram desafiar os deuses
abrindo um caminho na floresta obscura,
Vou contar a história de Ogun,
o Prometeu africano. (Pepetela, 2013 [1980], p. 9)

Nesse “pórtico do romance” (Aguiar, 2018, p. 100), apoiados pela análise do pesquisador gaúcho de literatura lusófona Gustavo Henrique Rückert (2020, p. 84), percebemos o tensionamento simultâneo de duas polaridades, que desenham quatro opostos. Numa direção, os guerrilheiros (num âmbito heroico) e a natureza (num âmbito divino). Na outra, Ogun (da mitologia iorubá) e Prometeu (da mitologia grega). 

O campo magnético que se forma nesse miolo reflete em grande medida a representação da floresta do Mayombe ao longo de todo o livro: um espaço ao mesmo tempo cosmopolita e centrípeto, vórtice fértil de transformação. Somos apresentados a ele já na primeira página:

As árvores enormes, das quais pendiam cipós grossos como cabos, dançavam em sombras com os movimentos das chamas. Só o fumo podia libertar-se do Mayombe e subir, por entre as folhas e as lianas, dispersando-se rapidamente no alto, como água precipitada por cascata estreita que se espalha num lago. (Pepetela, 2013 [1980], p. 13)

A floresta aperta os guerrilheiros entre suas frestas. Comparada a uma cascata de pedras, em um mundo invertido de gravidade oposta, ela aprisiona o acampamento e só deixa cair a fumaça. Reverte os sensos, desnorteia. Embaralha os eixos, desorienta. Vira a ampulheta. De largada, Pepetela deixa claro: seus personagens (e agora também seus leitores) estão embrenhados em um anti-mundo.

Segundo análise de Aguiar (2018, p. 95), os personagens são constringidos por esse espaço atópico, segundo análise de Aguiar (2018, p. 95), antes de poderem conquistar os utópicos. Nesse momento, portanto, a floresta funciona como metonímia da nação, ainda no suor da revolução.

É também um espaço de conflito entre os próprios elementos naturais. Na manhã seguinte, vemos as copas do Mayombe atrasarem a chegada da aurora e da garoa no solo, onde se deitam os guerrilheiros, até que no céu já tenha parado de chover. “Tal é o Mayombe, que pode retardar a vontade da Natureza” (Pepetela, 2013 [1980], p. 16). Ou seja, o Mayombe é apresentado como um corpo terceiro, entre humano e natureza. Ele lida com a natureza, mas não cabe tão simplesmente dentro dela — nem necessariamente a respeita.

E vai se compondo, multiplicando seus elementos: aves noturnas, macacos, esquilos, elefantes. Uma manada passa “calmamente, agitando as trombas e as enormes orelhas, nada alarmados por aquela fila de homens de verde que saíam do verde imenso do Mayombe” (Ibid., p. 23). Os guerrilheiros, em suas fardas, não causam estranhamento aos elefantes — são percebidos apenas como outros elementos que compõem o verde imenso. Sugere-se, pela primeira vez, uma dissolução dos personagens no espaço da floresta.

Embora sejam acolhidos e assimilados, os guerrilheiros consideram abater os elefantes. Abatem os peixes do rio e até as árvores, se necessário. Talvez porque o acolhimento pode pressupor uma troca, que se vincula a um pensamento de reapropriação anticolonial abordado por Aguiar (2018) quando define que “a luta na floresta implica também a luta pela floresta” (p. 99, grifos da autora). Esse raciocínio se evidencia em um diálogo com os trabalhadores madeireiros do governo colonial:

— [...] As árvores são do patrão? Não. São vossas, são nossas, porque estão na terra angolana. [...]
— [...] Somos soldados que estamos a lutar para que as árvores que vocês abatem sirvam o povo e não o estrangeiro. (Pepetela, 2013 [1980], p. 36)

Diante dos guerrilheiros reivindicando a propriedade dos recursos da mata, começamos a compreender a comparação com Ogun feita na epígrafe. No mito, segundo o sociólogo mineiro da religião Reginaldo Prandi (2001), após forjar da areia quente ferramentas para os humanos, o orixá passa “a ser saudado como Aquele que Transforma a Terra em Dinheiro” (p. 96). Similarmente, os revolucionários procuram conquistar na floresta meios para a autonomia dos angolanos.

Mas a floresta responde às suas investidas. Quando os guerrilheiros precisam atravessar uma montanha, o verbo empregado para a transposição é “atacar” (Pepetela, 2013 [1980], p. 45). E ela reage. O espaço martela contra o corpo, resistindo à travessia. A topografia imprevisível, a mata espessa, a lama pesada, a chuva torrencial e a escuridão da noite formam cinco planos simultâneos de desafio, mastigando os personagens contra a tal “montanha traiçoeira” (Ibid.).

Esse episódio ainda compõe o “mapa espaço-temporal atópico, de luta sacrificial” da análise de Aguiar (2018, p. 96), que, “quase com tons expressionistas”, “engendra episódios de sofrimento e de esforço” (Ibid.), inserindo-se, assim, em uma tradição narrativa mitológica (Aguiar menciona a Bíblia e Sísifo) que associa os espaços de altitude à dificuldade.

Soma-se o elemento da chuva, cuja severidade é tamanha que, após a travessia, rende a seguinte passagem:

Houve quem estendesse a lona no chão molhado para dormir. A maior parte, porém, deitou-se mesmo diretamente no chão, tapando-se com o pano já molhado.
— De vez em quando mexe os braços e as pernas — disse Sem Medo ao Comissário. — Senão podem ficar fixos ao chão, pois o clima aqui é tão fértil que, com a chuva, se criam raízes dum dia para o outro. (Pepetela, 2013 [1980], p. 46)

A fusão dos guerrilheiros com a floresta supera a sugestão e se torna perigo literal, involuntário, motivo de precaução. E a possibilidade de ser engolido pelo espaço não é só material: durante a noite, em sonho, a travessia da montanha retorna para os personagens fundida aos seus próprios fantasmas.

Já do outro lado do tabuleiro, os soldados portugueses, que rondam à procura dos revolucionários, "não aceitam dormir na mata” (Ibid., p. 48). São introduzidos pela primeira vez na narrativa numa emboscada na estrada colonial. Durante o ataque, ambos os lados atiram e se abrigam entre as árvores e arbustos. Mas, enquanto os guerrilheiros silenciosamente se refugiam do local do confronto, os soldados portugueses persistem em atirar “insultos, de mistura com balas” (Ibid., p. 52) e obuses de morteiro ao longo de toda a noite. Não “como arma ofensiva, mas apenas para levantarem o moral dos soldados tugas, cercados numa mata desconhecida e temível, que escondia monstros aterrorizadores. O barulho acalmava-os, dava-lhes consciência de seu poderio, protegia-os do seu próprio medo” (Ibid., p. 54).

Simultaneamente, para os angolanos, quanto mais tempo se passa após o confronto, mais a floresta os protege. “Não fizeram guarda. À noite, na mata, o melhor guarda era a impenetrabilidade do Mayombe” (Ibid.). Para Aguiar (2018), essa relação se traduz na imagem da “floresta como escudo agarrado à mão do guerrilheiro” (p. 95). “Abraçaram-se às lianas, cobriram-se com as folhas que dos seus braços nasciam, e prepararam-se para ali passar a noite” (Pepetela, 2013 [1980], p. 57). Deixam a floresta abraçá-los de volta, incorporam-se aos cipós e se tornam caules. Finalmente e a olhos vistos, fundem-se ao espaço. 

Essa fusão é bilateral, e seu maior fruto material é a Base guerrilheira:

O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros. As casas tinham sido levantadas nessa clareira e as árvores, alegremente, formaram uma abóbada de ramos e folhas para as encobrir. Os paus serviram para as paredes. O capim do teto foi transportado de longe, de perto do Lombe. Um montículo foi lateralmente escavado e tornou-se forno para o pão. Os paus mortos das paredes criaram raízes e agarraram-se à terra e as cabanas tornaram-se fortalezas. E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais. A folhagem da abóbada não deixava penetrar o Sol e o capim não cresceu em baixo, no terreiro limpo que ligava as casas. Ligava, não: separava com amarelo, pois a ligação era feita pelo verde.
Assim foi parida pelo Mayombe a base guerrilheira. (Ibid., p. 67)

Sincronizam-se as agências da floresta e dos guerrilheiros, criando não apenas um ponto de apoio militar, mas um habitar. Ou, talvez mais precisamente, um hábitat. A floresta efetivamente “se distancia da ideia de cárcere” do início do livro e “aproxima-se da ideia de abrigo e de interação entre homem, cultura e natureza” (Aguiar, 2018, p. 99), cruzamento que podemos identificar na seguinte definição de hábitat pelo Dicionário de Português licenciado pela Oxford University Press (2022):

2 ecologia tipo de ambiente caracterizado por um conjunto de condições bióticas e abióticas integradas (s.v. hábitat)

Materiais da floresta — os paus, o capim, a terra — são incorporados pelos humanos na arquitetura das edificações, que, por sua vez, são reincorporadas ao meio biótico pelas raízes que teimam em crescer e as alicerçar à natureza. Cria-se, assim, um ciclo recíproco de adaptação material entre os personagens e o ambiente, semelhante aos ciclos de equilíbrio fundamentais a um ecossistema. O que um produz é absorvido pelo outro, numa batalha cooperativa que nutre a ambos. Vemos, portanto, a fusão ultrapassar a escala dos corpos e alcançar uma escala de sistema.

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A comida faltava e a mata criou as “comunas”, frutos secos, grandes amêndoas, cujo caroço era partido à faca e se comia natural ou assado. As “comunas” eram alimentícias, tinham óleo e proteínas, davam energia, por isso se chamavam “comunas”. E o sítio onde os frutos eram armazenados e assados recebeu o nome de “Casa do Partido”. O “comunismo” fez engordar os homens, fê-los restabelecer dos sete dias de marchas forçadas e de emoções. (Pepetela, 2013 [1980], p. 67)

Como num ensaio de país autossuficiente, movido a “comunas”, esse novo sistema não por acaso nomeado “comunismo” (Ibid., p. 67) entra como um tipo de suporte, como “elemento propulsor desses sonhos e vivências, alimentando física e psicologicamente os combatentes” (Aguiar, 2018, p. 131), tanto na luta quanto no pós-luta. Fazendo-os engordar e se restabelecer da revolução, o espaço da mata aparece agora como metonímia utópica já da nação independente.

Com a maturação desse sistema esse meio híbrido entre humano e vegetal, talvez possamos visualizar a teoria do filósofo italiano da natureza Emanuelle Coccia (2018). Os guerrilheiros, aqui, desempenham um papel semelhante ao das plantas, que produzem a atmosfera e matéria orgânica que voltam a basear a si mesmas.

Desse ponto de vista, as plantas abalam um dos pilares da biologia e das ciências naturais dos últimos séculos: a primazia do meio sobre o vivente, do mundo sobre a vida, do espaço sobre o sujeito. As plantas, sua história, sua evolução, provam que os viventes produzem o meio em que vivem, em vez de simplesmente serem obrigados a se adaptar a ele. (p. 17)

 

Similarmente, os guerrilheiros produzem, em coautoria com o Mayombe, tanto um ambiente que os abriga — a cabana —, quanto um experimento de mundo — o país. Em seguida, vemos esse processo se traduzir no plano mitológico sugerido na epígrafe.

O livro passa a se referir ao “deus-Mayombe” (Pepetela, 2013 [1980], p. 68) como Zeus e os guerrilheiros como Prometeu, agora comparando o feito revolucionário de ocupar a floresta em prol da nação com o feito do grego de roubar o fogo em prol dos humanos. Zeus, inicialmente, o pune: “A mata criou cordas nos pés dos homens, criou cobras à frente dos homens, a mata gerou montanhas intransponíveis, feras, aguaceiros, rios caudalosos, lama, escuridão, Medo” (Ibid., p. 68). Mas eles seguem avançando. Incorporam-se à floresta e ela se incorpora a eles:

E os homens tornaram-se verdes, e dos seus braços folhas brotaram, e flores, e a mata curvou-se em abóbada, e a mata estendeu-lhes a sombra protetora, e os frutos. [...]
Assim é Ogun, o Prometeu africano (Ibid.)

A partir da análise da pesquisadora paulista de literaturas africanas Cibele Verrangia Correa da Silva (2018b), percebemos que os guerrilheiros desviam, assim, o destino do mito grego para o mito iorubá. Em vez de receberem a punição eterna como Prometeu recebe de Zeus, recebem a gratificação divina da floresta como Ogun recebe de Olorun. Como reconhecimento de seu feito para a humanidade, o orixá é incumbido de cuidá-la e guiá-la em seu desenvolvimento. 

Sugere-se, com essa autorização da floresta, que os guerrilheiros assumam um papel de mediadores entre o povo angolano e a prosperidade. Em outras palavras, a batalha pela reverência da floresta parece anteceder e conduzir a um poder de governar. Esse discurso pincela uma pretensão política do MPLA no cenário revolucionário, em que os objetivos dos partidos não se encerravam com a Independência, mas se projetavam no futuro governo da nação.

A partir desse entrelaçamento natural entre mitologia e história, Silva (2018b) propõe uma leitura de Mayombe como obra épica. Apoia-se no crítico literário carioca Anazildo Vasconcelos da Silva (2012), que entende o épico como “junção do real com o mítico, observando os referenciais históricos e simbólicos de uma nação”. Considerando a pluralidade de referenciais de Angola, frutos do constante intercâmbio cultural tanto antes quanto durante a colonização, Silva (2018b) identifica no espaço heterogêneo da floresta “provido de quereres, afetos e intenções o encontro do real com o mítico, sendo esta substância força propulsora e criadora da nação construída e imaginada” (p. 131). Ou seja, é do choque entre histórias e culturas na figura simbólica do Mayombe que emerge uma identidade e, com ela, a própria nação.

A agitação desse processo de fricção se reproduz em uma passagem do clima da floresta: “Aproxima-se trovoada” (Pepetela, 2013 [1980], p. 103).

As nuvens acumulavam-se sobre a floresta, à sua frente. A floresta concentra nela as nuvens, pensou Sem Medo. Elas vêm dos desertos e vão cruzar-se, penetrar-se, sobre o Mayombe. Correm livremente pelo espaço, em jogos essenciais de deformação constante — ou recriação constante — para serem atraídas em massa informe, se tornarem prisioneiras do seu próprio conteúdo. Uma nuvem isolada tem a individualidade que lhe é dada, pela sua mutabilidade inquieta e caprichosa; esta individualidade perde-se na massa que se concentra e que vale pelo seu peso, pela sua potência selvagem. (Ibid., p. 104)

Essas nuvens que vêm de diferentes geografias para se concentrarem no Mayombe podem, aqui, ser lidas como metáforas para os guerrilheiros. Também eles, atraídos de seus contextos ao longo de todo o território angolano para combaterem nessa região da revolução, atravessam-se e entrelaçam-se política e emocionalmente. Na floresta narrada como zona de convergência, nó de redemoinho, todos se confrontam entre si e consigo mesmos — “em jogos essenciais de deformação [...] ou recriação constante” (Ibid., p. 104). Assim que se conformam como efetivo militar de um movimento histórico maior, tornando-se, tal como nuvens em tempestade, uma “massa que se concentra e que vale pelo seu peso” (Ibid.).

Com isso, podemos enxergar, novamente, um comportamento análogo ao vegetal da teoria de Coccia (2018). As plantas, por crescerem em variadas inclinações e direções, artesãs da deformação dos próprios corpos, “coincidem com as formas que inventam: todas as formas são para elas declinações do ser e não apenas do fazer e do agir” (p. 18). Para elas, portanto, “imaginar é se tornar o que se imagina” (p. 19).

Os guerrilheiros, convergindo de diferentes passados e inclinados a divergentes projetos de futuro, consolidam-se como grupo, heterogêneo mas unido nesse processo de construção da nova Angola. Como variadas plantas que, juntas, são floresta, tornam-se, de fato, um embrião da nação plural que imaginam..

Essas pulsantes transformações entre indivíduo e massa, personagem e espaço, progridem nas cenas finais, em que se articulam ataques aos soldados portugueses. À medida em que o plano de ação vai se fazendo claro, a madrugada também clareia. Quando adquirem confiança, “as árvores começaram a tomar formas difusas” (Ibid., p. 214). A emboscada se forma se ergue em paralelo à formação das figuras do Mayombe que amanhece. Reitera-se claramente: esse espaço não é só palco para a batalha, mas sim participante; não só tabuleiro, mas peça; não só terra, mas país.

Figuras e fundo perdem oposição, preparando o terreno para a conclusão do romance, concentrada na imagem de uma amoreira:

O tronco destaca-se do sincretismo da mata, mas se eu percorrer com os olhos o tronco para cima, a folhagem dele mistura-se à folhagem geral e é de novo o sincretismo. Só o tronco se destaca, se individualiza. Tal é o Mayombe, os gigantes só o são em parte, ao nível do tronco, o resto confunde-se na massa. Tal o homem. As impressões visuais são menos nítidas e a mancha verde predominante fez esbater progressivamente a claridade do tronco da amoreira gigante. As manchas verdes são cada vez mais sobrepostas, mas, num sobressalto, o tronco da amoreira ainda se firma, debatendo-se. Tal é a vida. (Ibid., p. 243)

Assistimos a amoreira se fundir e se destacar do restante da floresta, ir e voltar, fundar e solver. Ambos os estados, denso e disperso, são simultâneos. Como as nuvens que, de perto, são neblina, a nitidez da amoreira depende da mancha da floresta. A batalha entre figura e fundo se mostra, de novo, cooperativa.

Homens, árvores, deuses, vivos, mortos, solo, floresta se sobrepõem em uma massa, com a mancha verde da vida, que perpassa a todos, predominante. Tal é o Mayombe. (Rückert, 2020, p. 88)

Esse composto revolto de seres e forças pode ser o que Coccia (2018) define, por fim, como mistura. Penetram-se todos simultaneamente, criando as próprias formas que os contêm. Numa luta compartilhada pelos sentidos da história, do território e da identidade angolana, a floresta produz um sistema que nutre e revigora os viventes que a compõem, reabastecendo, no fim das contas, a si mesma. O campo de batalha se torna o microcosmo da utopia imaginada: Angola.

REFERÊNCIAS

AGUIAR, Adriana. Quando a violência colonial ecoa nas folhas da floresta e nas páginas literárias: Mayombe, de Pepetela. Abril: Revista do NEPA/UFF, Niterói, v. 10, n. 20, p. 91–108, 4 jun. 2018. Disponível em: <https://periodicos.uff.br/revistaabril/article/view/29952>. Acesso em: 11 jul. 2025.


BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
 

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.
 

COCCIA, Emanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Tradução de Fernando Scheibe. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2018.
 

OXFORD UNIVERSITY PRESS. Dicionário de Português [aplicativo]. São Paulo: Editora Objetiva, 2022. Disponível em: Dicionário do macOS. Acesso em: 17 jul. 2025.
 

PEPETELA. Mayombe. Rio de Janeiro: LeYa, 2013. Publicado originalmente em 1980.
 

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
 

PUNA, Miguel Maria N'Zau. Mal Me Querem. Lisboa: Guerra e Paz, 2019.
 

TUTIKIAN, Jane. Velhas identidades novas: o pós-colonialismo e a emergência das nações de língua portuguesa. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2006.

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DRIES VAN STEEN estuda arquitetura e urbanismo na Escola da Cidade. Entre pesquisa, escrita e projeto, desenvolve estudos sobre ecologia, natureza e cultura. Atualmente cursa um semestre na Universidad Nacional Autónoma de México.

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