
Um rio passou dentro de mim
Que eu não tive jeito de atravessar
Preciso um navio pra me levar
Preciso aprender os mistérios do rio pra te navegar¹
Assim Freud define a finalidade do trabalho psicanalítico nos anos finais de sua vida, em 1936:
Sua intenção é, realmente, fortalecer o Eu, torná-lo mais independente do Super-eu, ampliar seu campo de percepção e melhorar sua organização, de maneira que possa apropriar-se de novas parcelas do Id. Onde era o Id, há de ser Eu [no original: Wo Es war, soll Ich werden]. É uma obra cultural [Kulturarbeit] como o aterro do Zuydersee, digamos. (FREUD, 2010 [1936], p.160)
Nas palavras de Renato Mezan, em seu livro A trama dos conceitos, “toda a obra de Freud pode ser lida como uma lenta e penosa explicitação da fórmula: wo Es war, soll Ich werden” (MEZAN, 2013, p.337). Essa pequena frase funciona como uma fórmula, máxima, mote ou lema da tarefa que é a psicanálise como tratamento e sua função na cultura, de modo que podemos traçar diferentes destinos para o nosso trabalho (clínico, teórico, formativo, cultural) adotando essa frase como bússola e, ao mesmo tempo, ponto de múltipla bifurcação.
A ideia de “fórmula” que Mezan nos oferece é bastante interessante. Uma fórmula matemática é aquela que dispõe as posições que os objetos ocuparão em uma equação, ou em uma função. Na fórmula de Pitágoras encontramos a medida de qualquer um dos lados do triângulo retângulo a partir das medidas dos outros dois. Uma função é uma regra (ou fórmula) que associa a cada valor de entrada (como x) um único valor de saída (como y). Ela transforma um número em outro, de acordo com essa regra. Os números que são inseridos podem variar, mas a fórmula de conversão é a mesma, a função transformativa é uma só.
As diferentes traduções da “fórmula” freudiana parecem indicar diferentes funções transformativas. A compreensão da frase em alemão é cheia de possibilidades, e a tradução para outras línguas produz mais um bocado de sentidos diferentes, e até mesmo sentidos contrários. Há um artigo recente em que Juliana Bartijotto, Leda Tfouni e Paula Chiaretti escrevem sobre as possibilidades de tradução e suas consequências teóricas para nossa disciplina (BARTIJOTTO; TFOUNI; CHIARETTI, 2019). A pequena frase de 6 elementos (Wo Es war, soll Ich werden) rendeu, por conta do mais-de-um sentido de cada palavra, assim como suas possibilidades sintáticas de mútua articulação, somadas às possibilidades das línguas de destino, em mais de duas dezenas² de frases distintas, compiladas metódica e rigorosamente pelas pesquisadoras, cientes de sua inesgotabilidade³. Recolho aqui, depois de passar algumas vezes pela peneira, aquelas que, aos meus olhos, trazem notável contraste de sentido entre si. Proponho, ignorando o “quem disse qual”, perdido no trabalho de peneiragem, que olhemos para as diferentes funções transformativas que cada uma sugere:
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Onde era o Id, há de ser o Eu.
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O Eu deve desalojar o Id.
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Lá onde isso era, eu devo tornar-me.
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O Id deve se tornar o Eu.
A diferença de sentidos confere diferentes disposições para a frase que a sucede diretamente: “[Wo Es war, soll Ich werden]. É uma obra cultural [Kulturarbeit], como o aterro do Zuyderzee, digamos.”
A palavra Kulturarbeit é uma composição de Kultur (cultura, civilização, educação, cultivo, etc) com Arbeit (trabalho, obra, labor, prática, tarefa, etc), formação lexical parecida com Traumarbeit (trabalho do sonho, elaboração onírica, etc) e Ducharbeit (translaboração, perlaboração, work-through, etc). Freud nos oferece a imagem de que nossa tarefa fundamental seria um trabalho civilizatório similar àquele que foi (está sendo) feito no aterro do Zuyderzee, nos Países Baixos, uma grande obra humana, portanto, cultural, de conquista de um espaço no mundo da natureza. O aterro de Zuyderzee, na Holanda, foi um monumental projeto de engenharia hidráulica realizado no século XX para transformar o perigoso e instável Mar de Zuydersee em uma área segura e economicamente útil. Finalizado em 1932, o projeto envolveu a construção do Afsluitdijk, um dique de 32 km de comprimento e 90 metros de largura, que isolou um trecho do Mar do Norte, criando o lago de água doce IJsselmeer. Posteriormente, cerca de 1632km² desse lago foram aterradas para formar pôlderes, terras férteis que agora são usadas para agricultura e habitação.
Somadas as duas frases, temos que a “apropriação de parcelas do Id pelo Eu” seria o correlato na formação do psiquismo da transformação entre natureza e cultura: o Eu é cultura e civilização, o Id é natureza. A fórmula, a passagem do estado de natureza para o estado de cultura. Adotando as quatro formas que passaram pela peneiragem, teríamos, tomando a liberdade de substituir um-a-um os termos mantendo as fórmulas:
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Onde era a natureza, há de ser a cultura.
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A cultura deve desalojar a natureza.
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Lá onde naturalmente era, devemos tornarmo-nos.
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A natureza deve se tornar a cultura.
Nossa questão principal aqui será a seguinte: do que se trata essa transformação? Para as pesquisadoras, as traduções da frase seriam maximamente plurais, mas o destino dessa transformação, receio, seguiria uma história única (ADICHIE, 2009) da relação entre cultura e natureza: “a referência ao aterro, à drenagem, retiraria o Eu de qualquer registro relacionado à natureza, (...) o sujeito somente poderia constituir-se a partir de algo que não diz respeito à natureza.” (BARTIJOTTO; TFOUNI; CHIARETTI, 2019, p.4). Tendo em vista a direção de colapso que nossa realidade climática nos aponta, que exige as atuais especulações sobre o fim da espécie humana, gostaria de transformar essa constatação tão certa de si em questões mais ingênuas…
A partir do momento que algo passa a habitar a ordem da cultura, esse algo não é mais da ordem da natureza? A cultura e o homem passam a ocupar um lugar exterior à natureza? Somos o império autônomo da cultura dentro do grande império da natureza?⁴ Trata-se de uma conquista, um domínio, uma domesticação? … que diferenças poderíamos nuançar entre cada uma dessas noções? O homem, transformado em cultura, passa a ter controle sobre a natureza? O que é ocupar um território, um lugar, com cultura? O Eu se tornaria senhor da própria casa? A cultura “desaloja” a natureza?
Qual então seria o resultado do trabalho da psicanálise? Que efeitos as diferentes compreensões dessa tarefa nos colocam para nossa tarefa cultural diante da natureza? Que possibilidades de transformação podemos encontrar entre essas duas instâncias, o Eu e o Id? Foi essa pergunta que dirigi ao livro que fundamenta ambos estes conceitos na história da psicanálise, O Eu e o Id (FREUD, 2011 [1923]).
Proponho que tracemos o seguinte percurso nesse texto: primeiramente uma sessão de comentário do livro O Eu e o Id, para recolhermos algumas linhas de transformação que estão presentes nessa obra. Numa segunda sessão, trarei notícias da arqueologia brasileira recente, que aprofundam a interpenetração entre natureza e cultura a partir do estudo minucioso dos testemunhos materiais do passado amazônico, o que as arqueólogas e arqueólogos têm denominado como nossa história antiga. Então, na terceira e última sessão, buscarei alguma trama entre as partes e, com sorte, novas questões para o futuro.
O EU E O ID
Acredito que a palavra transformação nos ajuda a navegar por esse escrito de Freud. Publicado como livro autônomo em 1923, O Eu e o Id é conhecido como o texto fundador da segunda tópica. Essa expressão, tópica, é derivada de topos: lugar. Nada fica no mesmo lugar a partir da reorganização geral que Freud faz nesse texto, onde ele monta uma nova geografia para o aparelho psíquico. Trago aqui apenas alguns pontos sobre as transformações presentes neste texto, sem a pretensão de esgotar todas as transformações que ele opera.
Primeiramente, o texto em si mesmo é uma transformação na teoria de Freud. A sistematização do aparelho psíquico, tal como era feita até este momento, chega a um colapso. Até aqui tínhamos um sistema psíquico baseado na definição do inconsciente como aquilo que sofreu repressão: “adquirimos nosso conceito de inconsciente a partir da teoria da repressão” (FREUD, 2011 [1923], p.17), em que seria inconsciente tudo aquilo que havia sido reprimido. O par-opositivo consciente versus inconsciente seria organizado pela força de repressão, atuada pelo Eu: “desse Eu partem as repressões” (Idem, p.20), um Eu estreitamente ligado à consciência. Se até aqui tínhamos que, de um lado estava a coligação Eu-consciência e do outro tudo aquilo que o Eu havia exercido repressão, ocorre que em certo momento das investigações clínicas sobre o fenômeno da resistência, Freud é levado a admitir que “encontramos no próprio Eu algo que é também inconsciente, comporta-se como o reprimido, isto é, exerce poderosos efeitos sem tornar-se consciente, e requer um trabalho especial para ser tornado consciente”. Haveria uma parte do Eu que seria também inconsciente. E esta parte não poderia ter sido efeito de uma repressão anterior feita pelo Eu, posto que era uma parte do próprio Eu.
Aqui Freud vê que aquilo que dava o critério de definição do inconsciente até ali, a teoria da repressão exercida pelo Eu, ganhou “inúmeras obscuridades e dificuldades” (Idem, p.21), “torna-se uma qualidade ambígua” (Idem, p.22) e perde sua força explicativa. Imaginemos: seria preciso que aquele que sofre uma ação fosse também o agente dessa ação. Podemos imaginar alguém dando um soco na própria cara, conseguimos imaginar mil formas de autossabotagem, e sabemos que o próprio sistema psíquico atua em si próprio, contra e a favor de si mesmo. Porém há um limite nisso: uma galinha não é capaz de botar o próprio ovo do qual foi gerada… ou então: um homem caído em um lamaçal não pode retirar a si mesmo dessa situação sem algum tipo de apoio externo, como nos desenhos em que o personagem se salva de uma areia movediça puxando os seus próprios cabelos (há um conto em que um nobre barão, puxando sua própria peruca, retira a si mesmo e também ao seu cavalo de um buraco). Diante da possível perda do rigor, e tendo em vista os novos achados, Freud cria um novo posicionamento geral das categorias a partir de uma nova ordem de causas e uma nova ideia de formação.
Um novo lugar de princípio, não a consciência e o Eu, mas o próprio inconsciente. Freud radicaliza: antes de tudo, era o inconsciente, e dele brota a consciência. Antes de haver um Eu, havia algo, um ser. Aqui Freud faz a adoção do conceito cultivado por seu amigo Georg Groddeck, o Isso⁵, e define para sua disciplina que: “Um indivíduo é então, para nós, um Id [um algo] psíquico, irreconhecido e inconsciente, em cuja superfície se acha o Eu, desenvolvido com base no sistema perceptivo, seu núcleo.” (Idem, p.30). O Eu e a consciência ganham lugar a partir d’Isso: “o Eu é a parte do Id modificada pela influência direta do mundo externo, sob mediação do sistema percepção-consciência, como que um prosseguimento da diferenciação da superfície” (Idem, p.31).
Temos aqui uma primeira transformação entre Eu e Id: o que havia no início era um Id com uma superfície sensível que, diferenciando a si mesma sem desconectar-se, transforma-se em Eu.
O Eu nasce do Id e não se separa dele, mas diferencia-se de outras partes. O Eu fica ligado ao mundo externo: “A percepção tem, para o Eu, o papel que no Id cabe ao instinto” e à consciência que vai se formando nas interações com o mundo externo. Uma consciência que é motora (“normalmente lhe é dado o controle dos acessos à motilidade”), e está ligada às representações: “O Eu representa o que se pode chamar de razão e circunspecção, em oposição ao Id, que contém as paixões” (Freud acrescenta: “Tudo isso corresponde a notórias distinções populares, mas deve ser entendido tão só como aproximadamente ou idealmente correto”). Aquilo que é considerado mais bruto e primitivo, instintual, animal, fica alocado na figura do Id, e aquilo que se aproxima da razão civilizada, humana, é atribuído ao Eu. Nesse momento do texto, Freud constrói uma alegoria que incorpora essa relação entre homem e bicho, entre o cavaleiro e seu cavalo:
Em relação ao Id ele [o Eu] se compara ao cavaleiro que deve pôr freios à força superior do cavalo, com a diferença de que o cavaleiro tenta fazê-lo com suas próprias forças, e o Eu, com forças emprestadas. Este símile pode ser levado um pouco adiante. Assim como o cavaleiro, a fim de não se separar do cavalo, muitas vezes tem de conduzi-lo aonde ele quer ir, também o eu costuma transformar em ato a vontade do id, como se fosse a sua própria. (Idem, p.31)
O Id transforma-se em Eu, que faz mediação com o mundo externo e pode funcionar como guia para o esforço motor do Id. Esse guia, no entanto, não tem um esforço próprio, toda a força motora que o Eu encaminha não lhe pertence, mas é própria e não deixa de ser própria ao Id. O Eu, valendo-se da força do Id e podendo dar-lhe alguma orientação parcial, “se esforça em fazer valer a influência do mundo externo sobre o Id e os seus propósitos, empenha-se em colocar o princípio da realidade no lugar do princípio do prazer, que vigora irrestritamente no Id”. Assim o Eu transforma em ação “como se fosse a sua própria”, a vontade que é do Id.
Aqui podemos ver mais uma transformação: o princípio do prazer é transmutado em princípio da realidade. O aprimoramento das percepções do mundo externo capitaneadas pelo Eu permite maior realização concreta e menor frustração dos esforços mobilizados por um puro princípio do prazer do Id sem mediação e moderação por parte do Eu. Vale a atenção: ambos princípios não seriam opostos, como se a atuação do princípio da realidade fosse a de interceptar as inclinações do princípio do prazer. O princípio da realidade estaria em função do princípio do prazer, e mesmo quando sua atuação é de contenção, ela só é possível sob a promessa de realizá-lo com outro prazer ainda maior ou com a evitação do desprazer. O princípio da realidade aprimora o princípio do prazer.
A formação do Eu tem base no sistema perceptivo, por isso sua posição de mediador com o mundo exterior e também sua função de empenho no princípio da realidade. No entanto, o sistema perceptivo não está voltado só para o mundo externo, mas também para o mundo interno e suas comoções. O Eu também não se limita à sua origem superficial, mas continua em direção às profundezas sem uma demarcação de fronteira. Sua diferenciação é quantitativa, uma diferença de gradação... Por isso, uma parte do Eu opera simultaneamente enquanto Eu e enquanto Id. Há um Eu mais profundo e parecido com o Id, que opera efeitos como o Id, mas que penetra e interfere no Eu de outro modo. Freud estabelecerá esta parte do Eu inconsciente como o lugar ocupado pela instância do Super-eu, que há algum tempo estava desenvolvendo, mas sem lugar na arquitetura do psiquismo: “Os motivos que nos levaram a supor uma gradação no Eu, uma diferenciação em seu interior que pode ser chamada de ‘ideal do Eu’ ou ‘Super-eu’, foram explicitadas em outros trabalhos. Eles continuam válidos. A novidade que exige explicação é o fato de essa parcela do Eu ter relação menos estreita com a consciência.” (Idem, p.34). A via que Freud nos oferece para essa explicação é o rio tortuoso e cheio de veredas da libido, jornada que nos imporá o desenho de mais uma transformação: “A transformação da libido objetal em libido narcísica” (Idem, p.37).
No nascedouro deste rio, “bem no início, na primitiva fase oral do indivíduo, investimento objetal e identificação provavelmente não se distinguem um do outro” (Idem, p.36). Os investimentos libidinais, fluidos lançados pelo Id em direção aos seus primeiros objetos, posteriormente readentram à relação do Id com seu Eu. Após uma perda do objeto, depois de vividas as frustrações que dão boas-vindas a todos os seres ao mundo no “desmoronamento do complexo de Édipo” (Idem, p.40), o Eu “assume os traços do objeto, como que se oferecesse ele próprio ao Id como objeto de amor” (Idem, p.36-37). Freud indica que o resultado mais comum, efeito da fase sexual dominada pelo complexo de Édipo, é “um precipitado no Eu”, que o altera: “Essa alteração do Eu conserva a sua posição especial, surgindo ante o conteúdo restante do Eu como ideal do Eu ou Super-eu”.
A tensão do drama edípico é conservada como força: o Super-eu conserva, como ideal elevado instalado em solo primitivo, “o representante de nossa relação com os pais. Quando pequenos nós conhecemos, admiramos, tememos estes seres elevados; depois os acolhemos dentro de nós.” (Idem, p.45). Deste modo, o Super-eu torna-se o “herdeiro do complexo de Édipo”, e, assim, a “expressão dos mais poderosos impulsos e dos mais importantes destinos libidinais do Id.”. Enquanto o Eu é essencialmente representante do mundo exterior, da realidade, o Super-eu o confronta “como advogado do mundo interior, do Id”. E quanto mais forte foi o complexo de Édipo, “tanto mais rapidamente (sob influência de autoridade, ensino religioso, escola, leituras) ocorreu sua repressão, tanto mais severamente o Super-eu terá domínio sobre o Eu como consciência moral, talvez como inconsciente sentimento de culpa.”⁶. O mais primordial e animal de nossos primeiros objetos libidinais se torna, nessa transformação de libido objetal em libido narcísica, no mais elevado da cultura: “Não é difícil mostrar que o ideal do Eu satisfaz tudo o que se espera do algo elevado no ser humano. Como formação substitutiva do anseio pelo pai, contém o gérmen a partir do qual se formaram todas as religiões.” (Idem, p.46).
O livro vai adiante também na incorporação da nova teoria pulsional e nas mútuas transformações entre amor e ódio. São detalhamentos que ficarão para um próximo trabalho. Vamos ficar, por hora, nas transformações entre Id e Eu, e seu correlato, natureza e cultura. O livro ainda aponta para uma última transformação, com a qual encerraremos esta seção do texto.
Até aqui o texto apresenta uma sequência em que a natureza converte parte de si em cultura, em que o Id promove uma diferenciação de uma parte sua que não se desliga dele, mas antes a obedece, estende, realiza. Agora chegamos em um momento do livro em que Freud faz afirmações mais desconcertantes, que exigem de nossa imaginação. À medida que “acolhemos nossos pais dentro de nós”, abre-se uma nova penetração, mais um caminho de transformação, agora em sentido contrário, de Eu em Id, através da hereditariedade:
As vivências do Eu parecem inicialmente perdidas para a herança, mas, quando se repetem com frequência e força suficientes, em muitos indivíduos que se sucedem por gerações, elas como que se transformam em vivências do Id, experiências cujas impressões são mantidas hereditariamente. Assim, o Id hereditário alberga os resíduos de incontáveis existências do Eu, e, quando o Eu cria seu Super-eu a partir do Id, talvez faça aparecer de novo anteriores formas de Eu, proporcione-lhes uma ressureição. (Idem, p.48)
Haveria, portanto, alguma atividade de construção do Eu que, transmitida e repetida ao longo de gerações, modifica o Id. Haveria, portanto, alguma atividade de construção da cultura que, transmitida e repetida ao longo de gerações, modifica a natureza. Se admitirmos isso, teremos que admitir que o Id, há tempos, não é representante de uma natureza imaculada, sem penetração da cultura. Isso talvez acrescente mais uma camada para nossas considerações…
MEMÓRIAS DA TERRA
Ouvi pela primeira vez, há três anos, notícias que me deixaram pasmo. Foi em uma entrevista⁷ do podcast Vinte Mil Léguas, um trabalho sobre as relações pessoais de cientistas do passado com a escrita e com a literatura (“um podcast sobre ciências e livros”). A primeira temporada do podcast falou sobre Darwin e seus estudos, sua jornada no navio Beagle e as descobertas que ele incorporou em sua teoria da transformação das espécies. A segunda temporada era sobre Alexander Humboldt. O entrevistado que eu ouvi ali no meio da segunda temporada, em um episódio chamado “Jardins suspensos da Amazônia”, é o arqueólogo brasileiro Eduardo Góes Neves, e ele trazia notícias recentes, uma reunião dos trabalhos das últimas três décadas de escavações e estudos da região amazônica. Depois de ouvir essa entrevista, visitei um documentário e um livro seu, Sob os tempos do equinócio (NEVES, 2022). Trago aqui algo do que ouvi e li.
O trabalho de arqueólogas e arqueólogos na Amazônia está apenas engatinhando, dada a extensão do território. No entanto, as últimas três décadas já fizeram um acúmulo que permite olharmos de frente para, e contra, uma visão da floresta que herdamos diretamente da colonização.
Uma imagem frequente que temos da Amazônia é a de uma natureza pura e intocada, selvagem, inóspita para os humanos, sem Deus na visão dos pioneiros exploradores e missionários. Ideia que justificou o extermínio e a escravidão. Hoje, aqueles que querem protegê-la da destruição que a crescente máquina de produção de commodities faz⁸ também recorrem muitas vezes a uma ideia imaculada de natureza, em que a ausência do homem seria o melhor, ou até o único, antídoto à desertificação. Foi sob o lema de que a Amazônia seria um vasto território natural inóspito, inabitável por humanos, que os projetos da ditadura, como o da Transamazônica, juraram levar progresso e levar “gente sem terra para uma terra sem gente”, justificando assim uma trilha de sangue mata adentro. Até quando queremos dar uma magnitude da floresta, aquela que já foi considerada o “pulmão do mundo”, imaginamos um vastíssimo local de mata virgem, uma natureza em estado puro e elevado.
O que os achados arqueológicos apontam é que a ocupação humana na Amazônia data de pelo menos 8 mil anos, sendo habitada por incontáveis nações e povos em distribuições de alta densidade populacional em boa parte do período anterior à colonização europeia. Bem antes de terem sido agrupados todos debaixo da denominação de “índios”. Isso envolve algum esforço da imaginação e aponta para muito desconhecimento. Ainda mais surpreendente para mim foi a afirmação de que a floresta amazônica, antes da presença do humano, não era a mesma, e que a presença do animal cultural não se contrapôs à formação da floresta tal qual a conhecemos em sua magnitude, mas antes foi condição para essa formação.
Grande parte do solo da região amazônica é de alta acidez e baixa retenção de nutrientes, portanto pouco fértil e apto a alta taxa de lixiviação. Nas partes em que a floresta é mais densa, mais alta e resistente, a mata cresce e permanece sobre o solo da chamada “terra preta”:
Terras pretas são solos escuros, geralmente bastante negros, que podem ter textura “oleosa” e de desenvolvem em diferentes substratos minerais e contextos geomorfológicos. (...) Terras pretas são quase invariavelmente acompanhadas por materiais culturais, normalmente fragmentos de cerâmicas, que podem se acumular em grandes quantidades na superfície. (...) São solos bastante estáveis que não perdem fertilidade mesmo sob as condições climáticas das zonas tórridas equatoriais. (NEVES, 2022, p.119).
O estudo das camadas geológicas indica que a terra preta não existia antes da ocupação humana no território, mas apenas posteriormente, sob ação contínua de depósito de matéria orgânica e materiais modificados pela ação humana. Seus locais são repletos de matéria transformada pelos humanos, incluindo construções, pontas de pedra, túmulos, cerâmicas, etc, de tal modo que “terras pretas são, antes de tudo, sítios arqueológicos” (ibid., p. 124), “sítios com terras pretas são verdadeiras cápsulas de informação concentrada” (ibid., p. 120). São solos antrópicos no sentido de que foram ocupados pelos humanos, deixando ali seus vestígios culturais. E são solos antrópicos no sentido de sua origem: são formados pela presença humana. Segundo a hipótese da arqueologia, o solo mais fértil da Amazônia, que possibilita suas áreas de maior densidade e altura das árvores, é uma criação da cultura.
Outro indício da ação da cultura na formação da floresta é a enorme frequência de árvores como as castanheiras, como a castanheira que produz a castanha-do-Pará, ou castanha-do-Brasil. Esse tipo de vegetação necessita de espaço e sol direto para crescer. Demanda, então, a abertura e manutenção de clareiras e um solo de alta retenção de nutrientes. Depois que a árvore cresce em seus primeiros anos, ela chega a uma altura que dispensa a “limpeza” dos arredores, e continua a crescer, e vive uma vida longa, chegando a mais de 500 anos de idade. Esses fatores indicam que essa árvore tenha sido amplamente domesticada pelas populações, que, revezando os lugares de roçado, espalharam e multiplicaram a presença da árvore ao longo do território. E assim densificaram e aumentaram a estatura da mata como um todo.
Os trabalhos de escavação são minuciosos e o território é vastíssimo. A escavação revela os muitos tempos distintos de experiência do território, dispostos ao longo de muitos milênios. A apresentação que faço aqui só pode ser algo precária e muito preliminar, mas espero que sirva como convite para ouvirmos aquilo que as arqueólogas e os arqueólogos estão apontando para uma relação mais profunda e profícua entre os universos da natureza e da cultura. A partir dessas descobertas, estão forjando conceitos híbridos como os de “floresta cultural”, “paisagens culturais”, “paisagens em construção”, “ecossistemas manejados” e “agrofloresta”. Conceitos que nos fazem imaginar a floresta como uma espécie de tradição, um acúmulo de muitas camadas de transmissão de práticas de transformação e criação, instituição, daquilo que chamamos natureza.
MEMÓRIAS DO FUTURO
Creio que a existência de diferentes possibilidades de compreensão das palavras freudianas Wo Es war, soll Ich werden é antes um grande ganho para nós, um terreno fértil para nosso pensamento, do que uma torre de Babel desastrosa que deveria ser corrigida e permanentemente unificada. O texto de Freud que dá o solo de fundação do Eu e o Id aponta para uma relação de mútua transformação que ocorre em níveis distintos de um tempo muito maior do que imaginávamos. O Eu não substitui o Id, como quem o retira de cena para ser ocupado por outra coisa de outra substância. É a mesma substância, modificada. O Eu não desaloja o Id. Tudo se passa no mesmo terreno.
A cultura não desaloja a natureza pois ela mesma é um modo da natureza: somos uma espécie que se tornou capaz de construir cultura. Nossa construção cultural não nos torna senhores completos de nós mesmos, sabemos que o mar revolto atravessa os diques, e fazemos obras culturais de nossos instintos indomesticáveis na forma de sintomas. Nossa imbricação cultural com a natureza é de uma profundidade e velhice que chega ao inimaginável. E as construções culturais adentram à formação da espécie. As formações do Eu adentram ao solo profundo e fértil do Id, modificando-o. Se seguirmos as palavras de Freud, teremos uma visão de que antes do advento de um Eu em um indivíduo, já temos um Id grávido de muitos e muitos Eus do passado, prestes a virem à luz e serem, também, transformados. Se temos um futuro temeroso, no qual conseguimos antes sonhar o fim apocalíptico do mundo do que o fim da imensa máquina que o destrói, temos a tarefa psicanalítica de sonhar um destino a partir das memórias do futuro que já habitam nosso próprio corpo.
As visões do passado, que vêm à superfície nos Eus atuais, apontam também para outras possibilidades de futuro, soterradas pelo presentismo da ideologia e suas projeções miseráveis de vida futura, que nos sufocam em melancolia política e autodesprezo. Nosso futuro enquanto espécie não precisa ser o da auto extinção. Ao lermos as notícias antigas que a terra nos devolve, traduzidas pelas arqueólogas e arqueólogos, sabemos que outro futuro é possível, pois outra relação com a natureza já existiu e existe. Queremos abrir mais essa clareira que aponta para um futuro habitável e potável. Se existiu e existe um trabalho da cultura que não destruiu a floresta, mas antes a construiu, então a máquina de destruição do presente não é o único tempo possível. Se existiram e existem técnicas que aprimoraram e aumentaram nossa capacidade de subsistência e sobrevivência nesse planeta, aumentando com isso a capacidade de subsistência e sobrevivência de outras espécies de animais e plantas, então o plano de fuga para outro planeta ou a completa extinção da espécie não são os únicos futuros.
Quem sabe podemos acrescentar mais uma camada para nossa tarefa transformativa:
Wo Es war, soll Ich werden. É uma obra cultural como a terra preta da Amazônia, digamos.
REFERÊNCIAS
BARTIJOTTO, Juliana.; TFOUNI, Leda; e CHIARETTI, Paula. Wo Es war, soll Ich werden: traduções e consequências teóricas. Revista Subjetividades, 19(3), e8267. http://doi.org/10.5020/23590777.rs.v19i3.e8267, 2019.
ESPINOSA, Baruch. 1632-1677. Ética / tradução Grupo de Estudos Espinosanos; coordenação Marilena Chaui. - 1. ed., 1. reimpr. - São Paulo: EdUSP, 2018.
FREUD, Sigmund. O Eu e o Id. Em: O Eu e o Id, “Autobiografia” e outros textos. Volume 16 Companhia das Letras, 2011 [1923].
FREUD, Sigmund. O humor. Em: Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos. Volume 17 Companhia das Letras, 2010 [1927].
FREUD, S. Novas conferências introdutórias: A dissecção psíquica. Em: O mal-estar da Civilização e outros Textos. Volume 18 Companhia das Letras. 2010 [1936].
MEZAN, Renato. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2013.
NEVES, Eduardo Góes. Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia central. São Paulo: Ubu Editora / Editora da Universidade de São Paulo, 2022.
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FELIPE BELLEI CORDEIRO é psicanalista, graduado em Psicologia e em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Atenção Psicossocial pela Secretaria da Saúde de São Paulo; atualmente faz formação no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e realiza mestrado em Filosofia (USP) sobre a obra de Espinosa, com período de estágio de pesquisa na Sapienza Università di Roma.
1. Mistérios. Joyce Moreno e Gal Costa. Álbum: Revendo Amigos. Gravadora: EMI. 1994. Faixa disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=s5BlpXkzYcw
2. Esse número aumentaria conforme aumentássemos os solos culturais de recepção dessa frase, como as recentes assimilações da psicanálise na China ou no Japão, por exemplo.Esse número aumentaria conforme aumentássemos os solos culturais de recepção dessa frase, como as recentes assimilações da psicanálise na China ou no Japão, por exemplo.
3. “a análise discursiva do enunciado freudiano Wo Es war, soll Ich werden não somente nos permite compreender alguns desdobramentos teóricos que a sua formulação e a sua tradução produzem no campo da psicanálise, como também nos dá provas do modo como o encadeamento significante produz um saber que não se fecha” (p.8)“a análise discursiva do enunciado freudiano Wo Es war, soll Ich werden não somente nos permite compreender alguns desdobramentos teóricos que a sua formulação e a sua tradução produzem no campo da psicanálise, como também nos dá provas do modo como o encadeamento significante produz um saber que não se fecha” (p.8)
4. Temos um desafio que reverbera através de quatro séculos: “Quase todos que escreveram sobre os Afetos e a maneira de viver dos homens parecem tratar não de coisas naturais, que seguem leis comuns da natureza, mas de coisas que estão fora da natureza. Parecem, antes, conceber o homem na natureza qual um império num império. Pois creem que o homem mais perturba do que segue a ordem da natureza, que possui potência absoluta sobre suas ações, e que não é determinado por nenhum outro que ele próprio.” Baruch de Espinosa, 1632-1677. Ética / tradução Grupo de Estudos Espinosanos; coordenação Marilena Chaui. - 1. ed., 1. reimpr. - São Paulo: EdUSP, 2018, p. 233, grifo nosso.
5. Georg Groddeck, Das Buch vom Es / O livro d’Isso, trad. Teixeira Coelho. São Paulo: Perspectiva, 1987.
6. Gostaria de fazer um pouco de justiça com o Super-eu e lembrar que essa instância não é responsável apenas pelos sentimentos de culpa, vergonha, autocrítica destrutiva e outras modalidades de opressão ao Eu, e que sua força de moralidade também é a origem do sentimento de responsabilidade, orgulho (em bom sentido), confiança e alguns sentimentos de recompensa ligados à honestidade e à verdade. Além disso, vale lembrar que é uma instância capaz de proteger do Eu, como ocorre no texto de Freud sobre o humor, de 1927: “o humor seria a contribuição ao cômico por intermédio do Super-eu. (...) Se é realmente o Super-eu que, no humor, fala de modo assim carinhoso e consolador ao Eu amedrontado, isso nos mostra que ainda temos muito a aprender sobre a natureza do Super-eu.” Freud, Sigmund. O humor. Em: Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos. Volume 17 Companhia das Letras. 2010 [1927], p.268
7. https://open.spotify.com/episode/4pztWOnJ2G3iiThICajqZo?si=aky_lbmQTCe9csODN2Y9gw.
A entrevista começa no minuto 23 e dura aproximadamente 10 minutos, recomendo a audição.