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What we lost in the fire we'll find in the ashes.

(Refused, 2019)

Seria mesmo impossível vislumbrar a vida pós-capitalista diante de uma Terra Arrasada, mesmo após todos os aspectos da vida humana serem incorporados ao capital? É a partir dessa premissa que o crítico social e teórico da arte Jonathan Crary propõe alternativas à total devastação diante do capitalismo tardio em seu livro Terra Arrasada. Ocupando hoje a cadeira de Meyer Shapiro Professor de Arte Moderna e Teoria na Univeridade de Columbia, Crary dedicou a maior parte de sua carreira acadêmica e suas primeiras grande obras, Techniques of the Observer: On Vision and Modernity in the 19th Century (1990) (editado no Brasil pela Contraponto, 2012, “Tecnicas Do Observador: Visao E Modernidade"), e Suspensions of Perception: Attention, Spectacle, and Modern Culture (2000) (editado no Brasil pela Cosac & Naify, 2013, “Suspensões da Percepção - Coleção Cinema, Teatro e Modernidade"), a pesquisas relacionadas às complexidades da percepção estética, aos estudos sobre a atenção e o olhar na cultura visual contemporânea. 

Sua chegada à Universidade de Columbia, no turbulento ano de 1968, o levou diretamente ao ativismo, quando se uniu ao movimento estudantil SDS [Students for a Democratic Society](Estudantes pela Sociedade Democrática) e passou a estudar teorias marxistas-leninistas, além de se envolver com a cena contracultural de Nova Iorque e com o movimento artístico revolucionário e anticapitalista dos anos 60-70. Em seu livro anterior, 24/7 - Capitalismo Tardio e os fins do sono (2013), Crary já apontava as consequências sociais de um mundo financeirizado e conectado 24 horas por dia, por meio do uso da internet e de novas formas de trabalho e lazer incorporadas ao corporativismo no neoliberalismo, que transformam as 24 horas do dia em oportunidades (e exigências) para a produção e o consumo. Terra Arrasada, escrito nove anos depois, atualiza e aprofunda sua análise anterior. 

A escolha do título “Scorched Earth” (Terra Arrasada) remete a “esfolar, arrancar a pele de um corpo, expô-lo de maneira fatal” (p. 60), representando o “esfolamento” das camadas de proteção do planeta. Crary denuncia os efeitos de destruição pelo que chama de “empresas sociopatas”, as big techs, além de incriminar a condição de resignação do pensamento atual ao capitalismo e os esforços dos que propõem apenas reformas ao sistema atual, e não a total modificação das estruturas bilionárias existentes. Qualquer mudança real precisa ser radical e quem não se organiza pela mudança do sistema de certa forma está de acordo com o modelo vigente. Não se trata de não haver uma alternativa ao capitalismo tardio, mas sim de que qualquer alternativa verdadeira necessitará de mudanças estruturais. A principal é direcionada ao avanço tecnológico digital como o conhecemos hoje. No entanto, o livro não deve ser interpretado como um manifesto antitecnológico, mas um ensaio-manifesto político à la Guy Debord, autor citado por Crary com muita afinidade, mirando diretamente nas fatais consequências do uso de certas tecnologias por grandes corporações. 

PARA CRARY SÓ EXISTIRÁ FUTURO SE ELE FOR OFFLINE

O livro Terra Arrasada (editado para o público brasileiro pela Editora Ubu, 2023) é dividido em três capítulos e, na edição brasileira, traz um prefácio exclusivo. Nele, o autor aponta uma leve decepção em relação às resenhas publicadas sobre a obra original de 2022 (em inglês), que se concentraram sobretudo no primeiro capítulo. Sendo que para Crary, o ponto mais relevante, alarmante e que deveria ser profundamente debatido é o tema apresentado no capítulo 3, acerca dos danos ao olhar, à face e à voz das pessoas causados pelo avanço da tecnologia digital, com suas telas e assistentes de voz, em todos os momentos da vida humana. Por esta razão, nesta resenha decidimos dedicar maior profundidade a esta terceira seção do livro, alinhados ao desconforto que Crary aponta e por acreditarmos ser um desenvolvimento conclusivo indispensável ao que é apresentado nos dois capítulos anteriores, sobre a política e sobre a natureza, em suas consequências reais sobre o corpo. 

 

No primeiro capítulo, Crary se atém a ilustrar a situação atual do capitalismo tardio em suas dependências intrínsecas ao avanço do meio digital, da financeirização e do neoliberalismo. Inicia o capítulo declarando que um mundo futuro só será habitável em uma realidade desvinculada das operações do capitalismo 24/7, ou seja, offline. Visa evidenciar como todos os supostos benefícios dos avanços tecnológicos do complexo internético se tornaram irrelevantes diante dos seus “impactos nocivos e sociocidas” (p. 14). Crary considera este livro um agitador social capaz de instigar coletivamente o que é diariamente perceptível na vida de milhões de pessoas vítimas dos impactos digitais e “insistir que formas de recusa radical, e não de adaptação e resignação” (p. 15) são necessárias.

 

Aponta que o niilismo e a aceitação de que não há outra saída senão o sistema capitalista são frutos da autoperpetuação do próprio capitalismo. Buscando expor a falta de autonomia e de democracia nas redes, diferente do que defende o senso comum, ele lembra ao leitor que as redes são majoritariamente controladas por big techs sociocidas e por poucos bilionários. A constante distração e insularização dos indivíduos é uma meta a ser atingida pelas big techs. O uso assíduo do digital não se reflete em conscientização política ou mobilização coletiva por transformações estruturais, mas sim na manutenção conservadora ou agravamento da dominação econômica e social. 

 

No segundo capítulo, o autor discorre principalmente sobre o tema do título do livro em seu sentido literal, a terra arrasada, e argumenta sobre toda a destruição necessária para manter o sistema digital e capitalista em funcionamento. Crary historiciza temas como a devastação ambiental pelo capitalismo, a percepção sobre o futuro, a inteligência artificial e a relação da cultura moderna e pós-moderna com a ciência. Seu argumento visa defender o íntimo relacionamento das sociedades capitalistas com os avanços tecnológicos que corrompem a imaginação de um futuro que não seja ditado por tais bases econômico-sociais. Crary denuncia que um dos maiores “feitos” do capitalismo tecnocientífico é o envenenamento sistemático dos oceanos, do ar, dos mares, dos solos e inevitavelmente de todos os viventes submetidos a tal lógica produtivista. Fundamentalmente, a ciência não deveria estar isenta da responsabilidade de suas ações predatórias sobre os ecossistemas que poderia proteger, mas que opta por destruir.

 

O terceiro capítulo enfatiza os efeitos da internet transformando e capturando o olhar, a face e a voz. Crary denuncia as consequências dessa administração dos corpos pelas técnicas de rastreamento ocular e facial, levando ao empobrecimento tanto das relações sociais quanto das percepções de expressões humanas. Para Crary há uma inconciliável incompatibilidade entre o online e experiências da vida social humana como a "amizade, amor, comunidade, compaixão, livre desenrolar do desejo, compartilhamento de dúvida e dor" (p. 131). Tal incompatibilidade é indutora de violência e adoecimento. 

 

Crary mostra como a experiência humana está cada vez mais padronizada aos moldes ditados por exigências econômicas e disciplinares. Cita Marcuse (1898-1979) para explicar os mecanismos repressivos do homem industrial que normaliza a submissão voluntária, "de bom grado", aos tipos preestabelecidos de trabalho e funções sociais, apagando vias desejantes. Se “naturalizou” o gerenciamento capitalista da indústria cultural de massas e uma falsa noção de "autonomia e de liberdade" em um mundo de subserviência e sobrevivência. O complexo internético é uma continuidade e um aperfeiçoamento do capitalismo.

 

Crary argumenta  acerca da colonização da consciência, da homogeneização da experiência, da anestesia dos sentidos e da transformação da ciência natural em mera tecnicização. Seguindo a noção de proletarização em Marx, além da ameaça direta ao aprofundamento do trabalho físico alienado, há também uma dominação do “espírito” que resulta em uma perda coletiva da esperança no futuro. E, a partir da ideia de homogeneização, o autor aborda a temática da biometria e das tecnologias de rastreamento. Criticando as práticas irrestritas de biometrias e de conversão de comportamentos e respostas humanas em dados quantificáveis pelas big techs. O sucesso desse monitoramento logra a integração ao ambiente cibernético e o uso de tecnologia em rede. 

 

O capitalismo avança com as técnicas de rastreamento e persuasão do marketing digital e do avanço nas pesquisas sobre as expressões humanas e  "enfraquece a aptidão dos indivíduos para o cuidado, a empatia e a comunidade" (p. 139) . O sequestro do olhar humano, das condições únicas da íris e dos processos de rastreamento dos movimentos oculares vão além  do nível fisiológico e alcançam uma dimensão inédita de captura subjetiva em prol do  capitalismo.

 

Já o escrutínio digital da face traz à tona uma comodificação dos sentimentos e uma conduta sinistra de controle comportamental dos usuários. Estamos perdendo a habilidade de ver rostos ou de escutar vozes em sua profundidade temporal, nossa capacidade de apreensão de signos e sons está se dissipando, o que deflagra o destroçamento das formas sociais e das vivências onde a alteridade do outro em sua mais valorosa multiplicidade de rostos e vozes torna-se homogênea e opaca. Da mesma forma que se extraem dados para uma tentativa de padronização de sentimentos da face e dos olhares, as tecnologias atuais buscam analisar a tonalidade da voz (último objeto da análise de Crary), mensurando a raiva, tristeza e alegria, classificando as interações como "positivas" ou "negativas" dos interlocutores. 

A captura das faces, das vozes e olhares, adestrados e regurgitados pela forma esperada das redes sociais, intensifica nossa hostilidade ao estranho e a qualquer interação não guiada pelo benefício próprio, como denuncia o autor.  Para Crary, é evidente que estamos completamente deslumbrados, aquiescidos diante de uma realidade que acreditamos não poder mudar, passivos pela suposta conveniência de nossas telas digitais, mas estamos pagando pela conveniência com a perda de nossas capacidades de fazermos laços humanos.

 

Em conclusão, Crary identifica que os esforços do desenvolvimento tecnológico conduzido pelo capitalismo na era neoliberal intensificaram os efeitos do capitaloceno, avançando na destruição do planeta e suas formas de vida; desestruturaram, aparentemente, de maneira permanente as capacidades de organização coletiva por mudanças estruturais e as capacidades de cuidado e compaixão. A insularidade de indivíduos seduzidos e hipnotizados em suas telas, com hábitos de vida doutrinados pelas empresas de tecnologia, normaliza um empobrecimento das possibilidades de experiência, da surpresa, da admiração e da percepção atraente do mundo natural. Esta colonização das características de interação humanas deriva para uma "disposição niilista a deixar o mundo desabar" (p. 176). Desde a Sociedade do Espetáculo, Debord falava do "entretenimento unilateral" que atrofia o cuidado e a atenção com o outro - esta tendência apenas se intensificou. E hoje o espaço público não apresenta mais um potencial de imprevisibilidade, pois a abertura para o inesperado está ficando cada vez mais estreita. 

Crary faz um apelo em nome do resgate das práticas acumuladas ao longo dos anos para buscarmos alternativas diante do cataclisma climático sem paralelos que assola a realidade como está posta. Passos mínimos para viabilizar outros passos mais complexos, de projetos de escalas maiores, como seria a cooperação em rede, entre comunidades e para além de fronteiras.

 

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MARIA EUGÊNYA PACIONI GOMES é mestranda em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicações e Artes da USP. É especialista em Cultura Material e do Consumo (USP), em Administração e Finanças (PUCRS) e graduada em Produção Cultural (FMU). Ocupa atualmente o cargo de Assessora Técnica na Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Integra o grupo de pesquisa Estilhaço, o GT de Teoria Crítica e Psicanálise do Latesfip e é secretária executiva do Centro de Estudos sobre Autoritarismos e Crises. Membro da "International Society of Psychoanalysis and Philosophy SIPP-ISPP" desde 2023.

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