
Um dos aspectos importantes de O desejo dos outros é a abertura que a obra promove para a alteridade radical dos Yanomami, sendo por isso aclamada como uma contribuição fundamental por antropólogos, psicanalistas e importantes atores da luta social, como Davi Kopenawa. Aspecto que se nutre de uma dupla qualidade da pesquisa e da obra de Hanna Limulja: por um lado, a obra é fruto de uma vivência com a comunidade Yanomami do Pya ú (situada na região Toototopi nesse período, próxima da fronteira entre Roraima e Venezuela), vivência intermitente que se estende desde 2008 e culmina na publicação de sua tese de doutorado em 2019, basilar do livro publicado pela Editora Ubu em 2022. Por outro lado, sua abertura à alteridade radical dos Yanomami deriva da posição particular da autora com relação ao tema da pesquisa, ao campo da antropologia e à sociedade: ao vivenciar distintamente o sonho nos momentos de permanência na comunidade, Limulja compreende a centralidade deste fenômeno na vida dos Yanomami e decide abordá-lo diretamente, com a finalidade de comunicá-lo dentro e fora das fronteiras da antropologia e da universidade. Verdadeira abertura de aberturas, posto que nos convida a compreender também a abertura dos yanomami aos outros.
Como nos diz a autora, seu interesse pelo tema data de suas primeiras experiências de campo, durante as quais “sonhava intensamente” e partilhava seus sonhos com os yanomami (LIMULJA, 2022, p.24-6). Partilha que a permitiu compreender por seus efeitos a importância dos sonhos dentro das atividades cotidianas da comunidade e de apresentar este como um ponto fundamental a partir do qual a diferença entre as experiências de mundo yanomami e dos brancos se dá a ver. Afinal, ao passo que os brancos comumente atribuem ao sonho um papel ínfimo na vida social, compreendendo-o hegemonicamente como um fenômeno ligado à individualidade, para os yanomami, o sonho é diretamente uma experiência coletiva e motivada pelos os outros: tanto pelo desejo maléfico de um inimigo, pela saudade dos mortos e seu desejo de levar consigo os vivos¹, pelo perigo representado por animais peçonhentos e pelos desejos destrutivos de consumo dos brancos, como também, contrariamente, pela aproximação de um parente distante e bem querido. Em todos estes casos, para os Yanomami, é o desejo dos outros que os leva não apenas a sonhar, mas também a partilhar seus sonhos logo ao amanhecer, seja com parentes situados em redes próximas, seja, no caso de sonhos referidos à toda a comunidade, em discursos hereamu². Ao que correspondem prescrições ligadas à segurança coletiva, seguidas durante o período de vigília.
É por centralizar a singularidade do sonho yanomami em sua pesquisa e por buscar veiculá-la com generosidade em O desejo dos outros que Limulja opera uma dupla abertura para o diálogo na sociedade dos brancos: ao passo que a sua tese aborda um tema largamente deixado à margem pelos antropólogos até o momento de sua pesquisa – sendo uma exceção A queda do céu, escrita em condições igualmente excepcionais por Davi Kopenawa em coautoria com Bruce Albert (LIMULJA, 2022, p.25-6; KOPENAWA, 2015, 27ss), sua reedição em livro conta com uma linguagem fluida, acessível e prazerosa para o público em geral, que pode ainda aprofundar seus conhecimentos a partir de notas de rodapé com comentários e referências sobre as cerimônias tematizadas no livro, sobre os mitos Yanomami e sobre as suas diferentes línguas. Referências a partir das quais a autora nos conduz não apenas pelas diferentes dimensões desta experiência onírica singular, mas também nos apresenta a vivência de mundo própria aos Yanomami.
Neste sentido, a autora nos mostra que o sonho está intimamente ligado ao modo de relação dos Yanomami com a alteridade e que tal relação, por sua vez, está também ligada às suas concepções de pessoa e de corpo, resumida por Limulja a partir da tese de Bruce Albert (ALBERT, 1985). Como nos diz a autora (LIMULJA, 2022, p.60-4), o corpo Yanomami é dividido em duas grandes partes, o envelope corporal (pei siki), que nós reconhecemos como corpo, e um corpo espiritual (pei uuxi), que por sua vez se divide em quatro outras partes. Dentre estas, é o pei utupë (a imagem vital que todos os seres possuem) a parte que sai do envelope corporal durante a noite e tece relações com os utupë dos demais seres nos diferentes planos da cosmologia Yanomami (LIMULJA, 2022, 64-5). Um “tempo do sonho” (mari tëhë) que se passa na noite dos vivos e que corresponde ao dia dos espíritos, dos pore pë e dos xapiri pë³. Neste sentido, o sonho é um momento de vivência pelos Yanomami deste “mundo de alteridade”, do sai dos espíritos, no qual o tempo e o espaço é experienciado de forma distinta, embora indivisa com relação ao tempo de vigília (LIMULJA, 2022, p.66-70).
Vivência do sonho que explica, portanto, por que aquilo que se passa neste espaço-tempo distinto tem a capacidade de influenciar a vida da pessoa que sonha ou de toda a comunidade, e vice-versa. Mas, para além de trazer à tona esta diferença com relação à experiência onírica dos brancos, Limulja também desdobra esta discussão para as dimensões ética e cognitiva do sonho Yanomami e de sua partilha, que se desdobram para o tempo de vigília e que, por sua vez, lança luz sobre a posição do xamã e sobre os valores dos Yanomami.
Por um lado, se sonhar é abrir-se para a alteridade, tal atividade está sempre marcada pelo perigo deste encontro, no qual o sonhador é sempre a de presa do desejo do outro (LIMULJA, 2022, p.95). No caso dos sonhos com os mortos, é o desejo destes de levar os vivos consigo o que motiva a atividade noturna dos vivos. Da mesma maneira, como nos diz Kopenawa, é o desejo dos xapiri pë de tê-lo por perto o que o levava em seus sonhos de infância a ser presa deste desejo. Daí a centralidade da coragem: “é preciso ter coragem para poder se abrir para o mundo de alteridade que existe na floresta e no sonho” (LIMULJA, 2022, p.102). Afinal, na medida em que os animais de caça atuais dos Yanomami também foram humanos um dia, há sempre o perigo da perda da própria humanidade neste contato e de um consequente devir outro, que se dá segundo a medida da entrada no circuito das agências destes outros seres – igualmente “humanos”, embora diversos (LIMULJA, 2022, p.79; CASTRO, 2006 & 2018). Como nos diz Viveiros de Castro, a consequência da abertura à humanidade do outro é a de que “nunca se tem certeza de quem se é, porque os outros podem ter uma idéia muito diferente quanto a isso, e conseguir impô-la a nós: o jaguar que encontrei na floresta tinha razão, era ele o humano, eu não era senão sua presa animal. Eu era uma anta ou um veado, talvez um porco…” (CASTRO, 2006). Ou seja, o entrar na agência do jaguar corresponde ao tornar-se sua presa, ao perder a própria humanidade e ao pôr-se sob a forma de um tapir.
Daí o sentido da coragem do caçador, que também o torna apto a experienciar mais profundamente o sonho do que a das pessoas comuns da comunidade, posto que ele vive mais tempo distante na floresta, em contato com os animais e os espíritos, do que entre os seus na comunidade. Paralelamente, é também a coragem do xamã de aproximar-se dos espíritos e, no seu caso, de tornar-se outro durante o processo de iniciação – processo marcado por um terrível medo da morte (KOPENAWA, 2015, p.132-55) – o que faz de sua experiência onírica um caso limite de coragem. Este, para além de estabelecer contato direto e constante com os espíritos nas sessões xamânicas e nos sonhos, também se vê investido da responsabilidade de exercer uma atividade cosmopolítica nos liames dos diferentes mundos (KOPENAWA, 2015, p.39). Uma atividade que é condição para que a floresta possa continuar a viver assim como Omama a criou⁴, como um lar para os Yanomami e os xapiri pë – sendo novamente exemplar a atividade cosmopolítica de Kopenawa em oposição à destruição promovida pelos brancos (KOPENAWA, 2015, p.390), esta forma outra de humanidade.
Mas esta atividade cosmopolítica assenta-se não só sobre a coragem, como também sobre a generosidade, remetendo tanto a um segundo aspecto central da posição ética yanomami quanto à dimensão cognitiva dos seus sonhos. Nas palavras de Limulja: “ser xi ihete (generoso) significa estabelecer relações, construir alianças por meio da troca. Significa relacionar-se com os de fora, sair dos seus e se abrir para o perigoso mundo da alteridade. É por isso que, para ser generoso, é preciso ter coragem” [waitheri] (LIMULJA, 2022, p.102). Contrariamente, aqueles que não são generosos não podem ter coragem. Eles fecham-se ao contato com o outro. Articulação que faz da coragem e da generosidade qualidades inseparáveis entre si e basilares da conduta daqueles que se reconhecem como verdadeiros Yanomami (yanomami yai)⁵.
Novamente aqui, as atividades exemplares são a caça e o xamanismo. Ao caçador é necessária a coragem de ir longe na floresta sem os seus, para que possa exercer a generosidade ao dividir a sua caça. Ao xamã, é preciso que ele tenha a coragem de estabelecer contatos constantes com os outros em sessões xamânicas e em sonhos. E isto na medida em que se tratam de experiências correlatas e que operam como fontes de conhecimentos, posto que os espíritos, nestas ocasiões, transmitem-lhe suas palavras, levam-no a lugares nunca visitados anteriormente, indicam as ameaças que rondam a comunidade e mostram-lhe as origens do mundo em uma vivência atual do mito – condição para que o xamã possa, por sua vez, ser generoso e ceder estes saberes aos seus semelhantes, assim como dar vida à mitologia. Generosidade e coragem que, no caso de Kopenawa, ultrapassa os limites da sua comunidade com a publicação de A queda do céu, onde o autor dá suas palavras e os seus saberes aos brancos (KOPENAWA, 2015, p.65-6).
Ao explicitar estes aspectos da cultura yanomami, dando-nos a ver as aberturas deste povo à alteridade por meio dos sonhos e as posições existenciais daí derivadas, o livro de Limulja nos abre também uma via importante de reflexão sobre a atividade política de Kopenawa. Em tempos de crítica à falta de imaginação frente ao capitalismo, há grande tendência de entendermos as afirmações de Kopenawa de que os brancos não sabem sonhar na chave de uma visada projetiva e, em última instância, utópica. Ou seja, poderíamos ser levados a entender que se trata apenas de sonhar com um futuro melhor. No entanto, o que se passa parece ser algo um pouco mais amplo, posto que a questão talvez seja menos a de “imaginar” o futuro do que a de abrir-se à dimensão da finitude ligada à morte e ao sofrimento do outro no presente, reconhecendo a multiplicidade dos diversos mundos humanos e de suas relações.
É esta, ao menos, as conclusões que podemos tirar de uma reflexão sobre as críticas de Kopenawa de que os brancos não sabem sonhar, quando as consideramos sob o prisma de O desejo dos outros. Afinal, com este recurso, salta aos olhos as dimensões cognitiva e ética intrínsecas a esta crítica, condensadas na seguinte passagem de A queda do céu sobre as questões que mobilizaram Kopenawa em sua aproximação dos brancos e sobre as suas conclusões: “Quando eu era mais jovem, costumava me perguntar: ‘Será que os brancos possuem palavras de verdade? Será que podem se tornar nossos amigos?’” Ao que conclui: “Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. [...] Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mesmos. Seu pensamento permanece obstruído e eles dormem como antas ou jabutis. Por isso não conseguem entender nossas palavras” (KOPENAWA, 2015, p.390). Ora, trata-se de uma conclusão que indica não apenas a ausência de verdade na palavra dos brancos, mas também e como sua condição o fechamento para a alteridade e o esquecimento da própria finitude. Suspensão da questão da morte e da alteridade que, como explicita Kopenawa em outra passagem, alicerça a avareza e o desejo insaciável e altamente destrutivo de acúmulo de bens (KOPENAWA, 2015, p.409-12ss).
Daí podermos dizer que um dos aspectos mais importantes do livro de Limulja, que o torna uma referência imprescindível para um trabalho crítico na atualidade, seja o fato de ele representar em ato uma abertura de aberturas: com base em uma abertura da autora à experiência onírica dos Yanomami e em um trabalho importante de socialização do saber fora da academia, o livro nos permite nos aproximar da articulação entre as dimensões sociais, éticas e políticas dos Yanomami, condensadas em sua atividade onírica. Dimensões que nos convidam não apenas a sair de nós mesmos para considerar as questões dos Yanomami por suas próprias lentes, mas também a tornar este exercício de abertura a base de uma prática política e (por que não?) teórica.
REFERÊNCIAS
ALBERT, B. Temps du sang, temps des cendres : Représentation de la maladie, espace politique et système rituel chez les Yanomami du sud-est (Amazonie brésilienne). Tese de doutorado. Paris: Université Paris X–Nanterre, 1985.
KOPENAWA, D; Albert, B. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, São Paulo: Companhia das letras, 2015.
LIMULJA, H. O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos yanomami, São Paulo: Ubu Editora, 2022.
CASTRO, E. V. D. Metafísicas Canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural, São Paulo: Ubu Editora, n-1 edições, 2018.
_____________. “Uma figura de humano pode estar ocultando uma afecção-jaguar”, In. Multitudes, Paris, n. 24, 2006.
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SAULO LANCE REIS é professor e pesquisador. Possui graduação e mestrado em filosofia pela USP. Integra o corpo editorial da revista estilhaço, o grupo de pesquisa estilhaço e coordena o grupo de análise institucional e esquizoanálise do Latesfip.
1. Sobre a relação entre a saudade dos mortos, os sonhos com os mesmos e a noite, ver LIMULJA, p.107-15; sobre o tratamento das cinzas no contexto das festas reahu e sobre a relação entre esta festa e o céu dos mortos (hutu mosi), ver o capítulo 4 da mesma obra.
2. Segundo a autora, os hereamu são “discursos proferidos quase diariamente”, (...) “ocasião em que os pata thë pë [anciãos] usam de sua habilidade oratória para expor o que seus ‘pensamentos dizem’ e mobilizar a comunidade para a realização de alguma tarefa. Esse também é o momento em que circulam as notícias que chegam pelo sistema de radiofonia implementado em algumas regiões da terra Yanomami, e assim toda a comunidade fica a par dos acontecimentos relacionados às comunidades yanomami próximas ou distantes, e tem notícias dos parentes internados na Casa de Saúde Indígena (Casai), em Boa Vista” (LIMULJA, 2022, p.74).
3. Como nos explica a autora, os pore pë são os espíritos dos mortos, e os xapiri pë os espíritos auxiliares dos xamãs. Comentando sobre estes últimos a partir de A queda do céu (KOPENAWA, 2015, p.614), a autora afirma que “no tempo das origens, que se caracteriza sobretudo por estar em constante transformação, os ancestrais yanomami, em decorrência de seu comportamento desregrado, acabaram se transformando nos animais que os Yanomami caçam atualmente. Assim, as “peles”, siki, desses ancestrais deram origem aos animais de caça, enquanto suas imagens, utupë, deram origem aos xapiri pë (LIMULJA, 2022, p. 66).
4. Omama é o demiurgo da mitologia yanomami, sendo apresentado diretamente no capítulo 2 de A queda do céu. Nas palavras de Kopenawa: “Foi Omama que criou a Terra e a floresta, o vento que agita suas folhas e os rios cuja água bebemos. Foi ele que nos deu a vida e nos fez muitos. Nossos maiores nos deram a ouvir seu nome desde sempre” (KOPENAWA, 2015, p.81).
5. Sobre este ponto, é interessante ler o belo mito Yanomami da origem da noite, na medida em que ele estabelece relações diretas entre a caça, o saber e o sonho. Tal mito é reproduzido por Limulja a partir do relato dos sonhos do xamã Luigi (LIMULJA, 2022, p.57-59), o que, por sua vez, remete a certa indistinção entre sonho e mito e a plasticidade deste último (LIMULJA, 2022,154-5 e 163-4).